março 27, 2008

Manhã



La Danaide- Auguste Rodin


Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos



Mia Couto

março 26, 2008

Cronopio Convocado



Dizer Escuro


Tal Orfeu toco

nas cordas da vida a morte

e na beleza da terra

e dos teus olhos que mandam no céu,

só sei dizer escuro.



Não esqueças, que também tu, de repente,

naquela manhã, com a cama

ainda molhada de orvalho e o cravo

a dormir no coração,

viste o rio escuro

a passar por ti.



Com a corda silêncio

tensa na onda de sangue,

agarro o teu coração.

Tuas madeixas mudavam,

tornavam-se cabelos de sombra da noite,

flocos negros de treva

nevavam no teu rosto.



E eu não sou tua pertença.

Ambos nos queixamos já.



Mas tal Orfeu sei

na borda da morte a vida,

e azula-se-me

o teu olhar para sempre fechado.

Ingeborg Bachmann


25 de Junho de 1926, Klagenfurt, Austria - 17 de Outubro, 1973 Roma, Itália

Escritora, poeta e ensaísta austríaca.
Foi membro do Gruppe 47 - Grupo 47 do pós-guerra. A linguagem poética como possibilidade de iluminação, contra os horrores do mundo.
Com este ar blasé de estrela de cinema europeu, nem de longe, Ingeborg, parecia a profunda criatura que era, envolta em lembranças de atritos com o pai (fato que remete a Kafka na sua "Carta Ao Pai"), ao aspecto político-denunciador da sua obra, e aos temores íntimos que ensombreciam por vezes seu olhar.
Ingeborg por ironia do destino, ou como se queira denominar a força que torce os caminhos projetados, teve na sua morte por queimaduras, quando caiu com um cigarro aceso no banheiro e desmaiou, o desafio da dúvida. Pensaram os amigos: "Como?" Sim, ela poderia ter se acordado com a dor das queimaduras, não estivesse com alguns calmantes e alcool em sua corrente vital.
Assim é que nesta, como em tantas outras que passaram ou passarão, a Morte, a Loucura e sua confraria, aproxima-se assustadoramente da Arte.

PS: Propositalmente, escolhi um poema de amor para ilustração, pois é o lado menos divulgado da poeta

dos Ritos


a mansidão
as Razões
o Tempo
o meu silêncio
tua Tristeza
a dor de não saber
se é, ou não
o que gostaria.
a Madrugada acordada
o vinho, o cigarro, a pílula para acalmar o coração
que grita
Me Ama!
que sofre
às vezes calado,
noutras falando baixinho
o Telefone que toca
impropriedade da Hora
teu cansaço
meus abraços
Mornos, quentes
sempre tão doces abraços
a Lágrima que corre sem me dizer pra onde
o choro compartilhado através do Oceano de Tristezas
um dia
um mês
quantos anos a gente se conhece?
Tempo
de não saber se é o que quero
ou se espero
a nova volta da Vida
no Carrossel de cavalos mancos
e fadas enlouquecidas
Tempo
de ter que dizer
se me quer ou não
nesta Vida
ou se morro agora
pra Renascer em
olhos que Te
toquem
a Alma
que não é de Ninguém,
que Te mexam
as fibras do Coração
congelado
por Quem?

albanegromonte

março 25, 2008

A Morte de Lindóia (Canto IV)




Este lugar delicioso, e triste,

Cansada de viver, tinha escolhido

Para morrer a mísera Lindóia.

Lá reclinada, como que dormia,

Na branda relva, e nas mimosas flores,

Tinha a face na mão, e a mão no tronco

De um fúnebre cipreste, que espalhava

Melancólica sombra. Mais de perto

Descobrem que se enrola no seu corpo

Verde serpente, e lhe passeia, e cinge

Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.

Fogem de a ver assim sobressaltados,

E param cheios de temor ao longe;

E nem se atrevem a chamá-la, e temem

Que desperte assustada, e irrite o monstro,

E fuja, e apresse no fugir a morte.

Porém o destro Caitutu, que treme

Do perigo da irmã, sem mais demora

Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes

Soltar o tiro, e vacilou três vezes

Entre a ira e o temor. Enfim sacode

O arco, e faz voar a aguda seta,

Que toca o peito de Lindóia, e fere

A serpente na testa, e a boca, e os dentes

Deixou cravados no vizinho tronco.

Açouta o campo co'a ligeira cauda

O irado monstro, e em tortuosos giros

Se enrosca no cipreste, e verte envolto

Em negro sangue o lívido veneno.

Leva nos braços a infeliz Lindóia

O desgraçado irmão, que ao despertá-la

Conhece, com que dor! no frio rosto

Os sinais do veneno, e vê ferido

Pelo dente sutil o brando peito.

Os olhos, em que Amor reinava, um dia,

Cheios de morte; e muda aquela língua,

Que ao surdo vento, e aos ecos tantas vezes

Contou a larga história de seus males.

Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,

E rompe em profundíssimos suspiros,

Lendo na testa da fronteira gruta

De sua mão já trêmula gravado

O alheio crime, e a voluntária morte.

E por todas as partes repetido

O suspirado nome de Cacambo.

Inda conserva o pálido semblante

Um não sei quê de magoado, e triste,

Que os corações mais duros enternece.

Tanto era bela no seu rosto a morte!

Basílio da Gama

março 21, 2008

Taças de tinto, E...




Pois sim.
Gosto de ti, e sei.
Armadura nenhuma será capaz de deter este meu imenso coração que se enche de coisas e grita, ou berra, já nem sei, o amor todo que carrega em si.
E uma taça de vinho se revela última, quando o acorde dissonante do meu violão explode em sinais de pare! É agora ou nunca.
Senão haverá:
Focas amestradas a saltar em bolas aritméticas, tigres de bengala nem tão velhos assim a dizer: estamos aqui, sábios orientais em túnicas de seda, em dizeres morféticos e durmo!
Ah, mas nada existe além desta torrente de amor que me invade-arde-consome fome de tudo que sempre quis ter e nunca!
Olhos cor de não-sei-quê, boca que indica crueldade, mas só instila ternura, peito com pêlos. Todos os pêlos onde quis aventurar minha mão e nunca pude.
Agora tenho, e sei, meu.
Apenas isso, e.
Minha voz que se anuncia pelas máquinas absortas em teu sonho e saem janela a fora cantando todo este amor que finda em nós.
Agora que te encontrei, sou tua.
E nada me arrastará do vendaval que é esta vida que passa tão de repente...
E a gente nem sente
Que foi, passou.
E a ruga nos lábios se vê na foto, no início da curva dos fios de prata que advrtem: Calma.
Eu não.
Serena e sempre te busco nas noites e madrugadas infindas.
Te busco embaixo dos lençóis e sussurro em grito que se esvai em lástima. Ou lágrima. Já nem sei diferença que. Se há.
"Toma-me. Sou tua como quando era no início e te dizer poema ou canção, era urrar e mostrar pelo eriçamento de pêlos e tudo o mais, que sim, sou tua.
E para sempre hei de ser.

albanegromonte

março 20, 2008

Dois Cronopios Para Um




Dom Quixote, pintura sobre
um bloco de madeira, de Armando Romanelli






Visitando os cronopios amigos, eis que reencontro no Non Liquet ( um escrito de Cervantes/Quixote(que rendeu o post anterior)
Veio-me à memória a primeira leitura desta aventura ímpar, que fiz por volta dos 10 anos.
Invadiu-me uma vontade de trazer um pouco desta figura que vive em cada um de nós, feito partícula do cosmos... (uma pesquisa em algum lugar, em algum tempo, diz que este livro é o segundo mais lido do mundo... ficando atrás do best-seller de sempre, A Bíblia).
Então convidei dois cronopios para dele falar: Carlos e Luís.
Os dois textos de Drummond vêm de "Quixote e Sancho, de Portinari", uma série de 21 poemas escritos com base em igual número de desenhos do pintor, criados em 1956. Os poemas apareceram no livro de Drummond Impurezas do Branco, de 1973, mas haviam saído antes
numa edição fora de comércio, junto com trechos de Cervantes e os desenhos de Portinari.
O soneto de Jorge Luis Borges, "Sueña Alonso Quijano",tem, mais ou menos, o mesmo assunto do poema XXI, de Drummond. O mestre argentino, como sempre, oculta nos versos um achado brilhante: "Foi o fidalgo um sonho de Cervantes / E Dom Quixote um sonho do fidalgo." Brilhante, não é mesmo?
Por fim, este post é dedicado a Djabal, pela alta voltagem que imprimiu em minha alma de cronopio, com seus comentários neste humilde blog; e pelo sempre espetáculo que é o seu Non Liquet (www.havesometea.net/NonLiquet/)




XI / DISQUISIÇÃO NA INSÔNIA

Que é loucura: ser cavaleiro andante
ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
O que, mesmo vendado,
vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou — que doideira — um louco de juízo.


XXI / ANTEFINAL NOTURNO

Dorme, Alonso Quejana.
Pelejaste mais do que a peleja
(e perdeste).
Amaste mais do que amor se deixa amar.
O ímpeto
o relento
a desmesura
fábulas que davam rumo ao sem-rumo
de tua vida levada a tapa
e a coice d'armas,
de que valeu o tudo desse nada?
Vilões discutem e brigam de braço
enquanto dormes.
Neutras estátuas de alimárias velam
a areia escura de teu sono
despido de todo encantamento.
Dorme, Alonso, andante
petrificado
cavaleiro-desengano.



Carlos Drummond de Andrade




SONHA ALONSO QUIJANO



Desperta aquele homem de um indistinto
Sonho de alfanjes e de campo chão,
Toca de leve a barba com a mão
Duvidando se está ferido ou extinto.
Não irão persegui-lo os feiticeiros
Que juraram seu mal por sob a lua?
Nada. O frio apenas. Apenas sua
Amargura nos anos derradeiros.
Foi o fidalgo um sonho de Cervantes
E Dom Quixote um sonho do fidalgo.
O duplo sonho os confunde e algo
Está ocorrendo que ocorreu muito antes.
Quijano dorme e sonha. Uma batalha:
Os mares de Lepanto e a metralha.

Jorge Luís Borges