abril 30, 2011

Para Não Esquecer,





"A prosa é o diurno, a poesia é a noite: se alimenta de monstros e símbolos, é
a linguagem das sombras e dos abismos. Portanto, não há grande romance
 que em última instância, não seja poesia."


 Ernesto Sabato

abril 09, 2011

Para Quem Se Sabe

olhar este que se volta quando passa minha alma desnuda,
olhar que nem sei a cor, mas que me reconhece através do brilho apagado que exalo entre os fios de cabelo que soltam nos pentes agora.
olhar amigo, companheiro e que parece ter meus pensamentos descritos em pequenos dizeres que só eu ouço, que se transformam em força, que destroem meus medos, fazendo ruir as tristezas de outrora.
olhar que percebo em linha escritas quase em braille,
olhar que me impele e me faz crer que existem anjos,
e que à vezes eles estão perto demais para que se duvide que eles o são.
dois nomes para chamá-lo
e um só para senti-lo:
amigo.


albanegromonte



abril 06, 2011

Desfiguração (I)

canto da sala desta minha alma, exala escuridão e abandono.
do alto deste teto vermelho-sangue, segue pendurada que nem um enforcado, uma lâmpada queimada há tanto que já nem lembro a cor das paredes
e há paredes que me encarceram neste sentimento antigo que trava meus movimentos, mantendo presos meus abraços para você que chama da porta que não tem chave, onde há chumbo intransponível.
 e enquanto derramo as lágrimas esquecidas de um tempo que pensava morto e tão enterrado, retorno ao umbigo atávico e me dobro em paz que não chega, que não vem, que surda e muda se esvai pelos meus dedos com unhas roídas pelas perdas, pelo esquecimento, pela dor de não querer e ter, que voltar a não-ser.
estou eu.


albanegromonte

fevereiro 10, 2011

era 2005,





... e eu escrevi assim:



o Barão me dizia que nossa música nunca mais tocou,
e eu mudei de estação pra encontrá-la inteira em letra&melodia no último dial,
trazendo um gosto amargo na língua molhada de mágoa
ah, esses amores...
vão-se janela abaixo
de escada, elevando a dor no maior tom,
correndo de costas baixas e coração embriagado com a liberdade solta na alma esgotada
pelas noites&dias cravados no calendário da cozinha,
pelo corredor escuro e parado entre paredes que restaram da demolição das palavras
malditas e mal ditas, tolas palavras,
que nem se sabe o significado... acúleos citados de poeta meio bruxo
ferindo o peito do náufrago que isolado no mar escuro&revolto, atrela-se
à lanterna dos afogados
e segue, quando em terra firme, a luz no fim do túnel estranho que se abre aqui
e vai dar numa cidade tão grande
que se não me perder por lá
será num certo olhar de promessa vaga, que me verei a sentir falta de bússola
...
(quem tirou o último tijolo do muro onde a gente se sentou esses anos todos?)

ah, esses amores...
fugindo, rugindo maldições e pragas tantas
que até se agradece que os santos de pau oco eram anteriores a esta lenda de querer, e vão ficar
no seu cantinho de sempre, protegendo coração&corpo que ainda quer&precisa ser feliz.
levando roupas, discos, despertador, caneta de tinta invisível, fotografias de nada, metades de tudo que se pensava inteiro
(a cabeça do peixe ficou no aquário vazio)
o corpo sereia e a água toda que nascia dos meus olhos
você levou na mochila
onde nunca caberia a história verdadeira
deste nosso fracasso,
mas que guardou por inteiro
a grande mentira
que foi pensar que a gente se amou um dia.

albanegromonte

fevereiro 08, 2011

De Caneta e Papel







...a falha súbita e passageira que embranqueceu hoje meu olhar e transformou as letras que lia, em um borrão medonho, me torceram as vísceras, e voltei  ao medo ancestral de nunca mais poder...
meu peito gelou ao lembrar de quem esta falta fez crescer (Jorge) e de quem se escondeu para sempre atrás da ausência da luz primeira que se acende em nós (João).
e eu ainda nem mesmo fiz a minha parte.
haverá tempo, eu sei
mas ainda há vontade?
ou em sentido inverso ao ângulo das lentes, diminuiu em mim a certeza de ter o que dizer?
se há alguém no ar, responda..."


albanegromonte

janeiro 18, 2011

À Quintana





dia desses, em que chove saudade
a menina que fui, encontrou-se com a mulher que sou,
no lado de cá do espelho
as duas se olharam e não se reconheceram, tamanho era o abismo entre elas,
e tão parecido com um labirinto era a imagem que se dava quando tentavam chegar mais perto.


como era um dia desses em que chove saudade,
me encostei na parede da memória,
e sorri com o tanto que ainda não sei de mim.


albanegromonte