abril 27, 2008

Nesta Noite

pois sim.
em ti, homem, é que deságuo e tudo o mais.
em teus braços sou, quase todos os instantes, pois há aqueles em que respiro.
sou tua e sempre.
meu olhar te cabe, te enlaça e prende.
são arrebóis, são sóis.
são nuvens, cargas de amor que se insinuam em trovões, ou em passos de dragão sem asas.
eu sei.
e não poderia em tempo outro pois era tão menina e tu, ainda eras também menino.
envoltos em brumas e coisas do verdume da idade, nos perdemos e.
fomos assim, de erro em erro, a esquecermos o que mais prometemos em cartas que nunca foram guardadas.
(mas em meu diário, há palavra sagrada que diz: era/é/será. tu!)
tempo que se foi e que nos roubou o ser feliz inteiro.
fomos nós]pedras que rolaram montanha acima, Sisífos de destino que era nosso.
pedras que rolaram sobre nossos sonhos, mas.
agora que eu e tu somos em carne, em pele e em sonhos, ainda que tardios.
és meu e eu
que dizer do que sempre fui e não sabia.
tua.
flor amarela, flor desta tão longa espera.
aqui assim. eu.
teu de sempre eternamente amor.
menina que ainda mora nos teus olhos de lembrar.
madura sim. fruta que cai sobre tua boca que anseia e diz:
minha.
sim, sou.
me toma
me leva
me morde a alma, ou o lábio que te implora e clama.
assume
carrega em cestas de vime
em teu coração caçador que agora em paz se sabe.
és meu e eu tua.
sem que ninguém testemunhe ou diga amém.
sabemos nós, e sim seremos para todo o sempre e mais.

albanegromonte

abril 24, 2008

Para o Zé

Eu te amo, homem, hoje como
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe — os
lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.

Adélia Prado

abril 17, 2008

Soneto Do Desmantelo Azul


Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

Carlos Pena Filho

abril 11, 2008

Stacatto


mais uma noite vã.
estrelas tantas que nem conto
se jogam cadentes no céu da minha janela.
quase posso te ver
através da lembrança do pouco ou nada que resta
de ti
na minha memória.
quadro a quadro vou decifrando
o teu enigma
na minha vida abandonada ao senhores do Tempo e do Esquecimento
percebendo a cada linha
desescrita
que me afastas do teu coração ateu
e o meu, que quase acreditou, vai ficando murcho
e frio
que nem violeta exposta ao impossível.
sinto pelo que nunca pude te dizer
quando me calavas com escorregos e desvios
que confundiam minha narrativa
deste querer que já nasceu morto
e enquanto mais uma noite vã se distrai
e ri da minha lendária insônia
visto o perfume que deixei no teu travesseiro
e atravesso o Mar bem na minha frente
me atirando no Infinito da minha paz
que será um dia
quando conseguir te esquecer

albanegromonte

abril 04, 2008

Manoel



No descomeço era o verbo
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que á a voz de fazer
nascimentos-
O verbo tem que pegar delírio.

Manoel de Barros

LisPector




Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.


Clarice Lispector