"Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.
Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.
Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.
Trémula, a haste
me pede
o adiar da noite.
Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.
Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.
Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?"
Mia Couto
junho 18, 2016
necessidade
não há urgência neste sentir desabalado e dilacerante.
há
n e C e S s i D a d E
hà desatada sangria
avalanche de emoções
acolhimento de sentires atàvicos.
e há pavor.
torto, desalmado, aterrorizante sentimento inesquecivel, que percorre veias, artérias
e há este bater descompassado de coração que pulsa, para, pulsa, para, pulsa e grita: não para!
não para. prossegue.
tenho temor é de não ter mais coração
de não chorar, de não me jogar na frente das rodas do trem
de não conseguir tirar a roupa na frente da tua casa, tocar a campainha mil vezes
até conseguir dizer: vem sou tua.
me veste e desveste
me toma e me larga.
mas pelos deuses todos do Olimpo...
toma-me.
e não nunca me larga.
carrega-me nos braços, pelas mãos, pelos cabelos... mas
me toma
me sabes tua, e serei o que quiseres ou o que puderes receber em teu coração viajante e disperso.
me beija, me adoça me acalma, me remove os temores e apenas
(é só o que peço é preciso)
Promete.
(tu e somente tu consegues)
promete.
cumpre como desde o início
e então
assim saberei.
ainda sou a tua
e tu, o meu.
então vem.
e toda profecia que se sabe há de ser enfim cumprida
então vem
te espero.
vem.
até o último dos dias
até que toda carne se desfaça.
até que o mundo reinicie.
até que não haja mais nada
a não ser, e será
o tudo que se refaz.
Alba N.
há
n e C e S s i D a d E
hà desatada sangria
avalanche de emoções
acolhimento de sentires atàvicos.
e há pavor.
torto, desalmado, aterrorizante sentimento inesquecivel, que percorre veias, artérias
e há este bater descompassado de coração que pulsa, para, pulsa, para, pulsa e grita: não para!
não para. prossegue.
tenho temor é de não ter mais coração
de não chorar, de não me jogar na frente das rodas do trem
de não conseguir tirar a roupa na frente da tua casa, tocar a campainha mil vezes
até conseguir dizer: vem sou tua.
me veste e desveste
me toma e me larga.
mas pelos deuses todos do Olimpo...
toma-me.
e não nunca me larga.
carrega-me nos braços, pelas mãos, pelos cabelos... mas
me toma
me sabes tua, e serei o que quiseres ou o que puderes receber em teu coração viajante e disperso.
me beija, me adoça me acalma, me remove os temores e apenas
(é só o que peço é preciso)
Promete.
(tu e somente tu consegues)
promete.
cumpre como desde o início
e então
assim saberei.
ainda sou a tua
e tu, o meu.
então vem.
e toda profecia que se sabe há de ser enfim cumprida
então vem
te espero.
vem.
até o último dos dias
até que toda carne se desfaça.
até que o mundo reinicie.
até que não haja mais nada
a não ser, e será
o tudo que se refaz.
Alba N.
dezembro 19, 2015
Ponto
"Um ponto, um simples ponto daqueles que finalizam frases, que mal percebemos. Um ponto assim, na tela do teu celular, no retrovisor do teu carro, na lente do teu óculos, numa página de um livro que estás lendo... pode ser apenas isso: um ponto; mas presta atenção, pois pode ser eu dizendo que estou com tanta saudade que nem consigo escrever, que te amo tanto que nem posso dizer mais, que estou te beijando e portanto não fale nada agora"
julho 11, 2015
Existe em mim a mais desesperada das lembranças.
Aquela que volta e meia, meia volta
Chega e me pergunta onde deve sentar.
Esta lembrança se faz presente em todas as ausências que de mim eu sei.
E vem.
Mesmo que a porta esteja fechada
O coração oco
E a alma vazia.
E como se fosse nada, isto tudo que eu disse
Entra pela fresta, pela janela ou pelo ralo, dizendo:
Eis-me
E então eu, que já nem lembrava, arregalo os olhos e sinto o coração acelerar
Dizendo não.
Mas a lembrança desesperada, se faz presente e certa
Aquela que volta e meia, meia volta
Chega e me pergunta onde deve sentar.
Esta lembrança se faz presente em todas as ausências que de mim eu sei.
E vem.
Mesmo que a porta esteja fechada
O coração oco
E a alma vazia.
E como se fosse nada, isto tudo que eu disse
Entra pela fresta, pela janela ou pelo ralo, dizendo:
Eis-me
E então eu, que já nem lembrava, arregalo os olhos e sinto o coração acelerar
Dizendo não.
Mas a lembrança desesperada, se faz presente e certa
E me carrega pela mão, como se fosse eu ainda a menina que estava lá, quando esta lembrança
Era real.
E sem mais poder resistir, sigo coração a dentro
E minha alma sofrida se aquece
Com tudo que já foi e me fez feliz
E seguindo o avesso de mim,
Encontro teu rosto conhecido, o sorriso mesmo, a boca que que me torturava
Em beijos intermináveis
As mãos que me guiavam caminhos que hoje eu sei.
E então, a mais desesperada das lembranças me acorda do silêncio que escolhi
E vira realidade quando olho para você, por trás das léguas tiranas que nos afastam
Através das canções e poemas que alguém fez para nós
E meu coração sabendo da impossibilidade de tudo, acelera dizendo Não.
Mas o que era já se tornou hoje
E fugir já não é mais possível.
Tudo se fez tarde.
Incerto meu passo, acerto os ponteiros do tempo
E te trago de volta
Minha mais querida e desesperada lembrança
Para ser o que nunca deveria ter deixado
junho 28, 2015
Poesia do Sàbado
Primeiro esqueci o cheiro
E ao acordar já não senti o sabor da sua boca
Depois o corpo tornou-se memória
Em vez de impressão
Esfumado, perdido, inglório
O seu rosto desaparecia
Ficavam quase nem os contornos
E no fim sentia só uma tristeza
De promessa feita e não tornada
Miguel Soares
E ao acordar já não senti o sabor da sua boca
Depois o corpo tornou-se memória
Em vez de impressão
Esfumado, perdido, inglório
O seu rosto desaparecia
Ficavam quase nem os contornos
E no fim sentia só uma tristeza
De promessa feita e não tornada
Miguel Soares
junho 24, 2015
Quarta da Poesia
Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas -
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.
A alegria que ontem foi angústia,
tempestade -
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.
Antonia Pozzi (1912-1938)
Tradução: Inês Dias
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