junho 06, 2011

Oração Pelo Poema



XXVI
A cem quilômetros por hora,
solto a direção do automóvel,
para escrever alguma coisa
mais urgente que minha vida.

Devo portanto utilizar
o vocabulário econômico
do Século: é proibido
amar, fumar, pisar na grama.

Mas gostaria que restasse
algum tempo para dizer
no poema as palavras súbitas
de recompensa e remissão.

Ó meu Deus, eu quero escrever
a minha vida,  não teu Céu.
Eu estou só e enlouquecido
como as ovelhas mais longínquas.

Dá pelo menos a esperança
de terminar o doloroso
poema. Dá isso a teu filho,
caído, e coberto de sal.

Alberto da Cunha Melo

Sobre Espelhos


"Em menino, eu tinha medo dos espelhos. O meu temor era que a imagem reflectida se movesse sozinha ou, por exemplo, que o meu corpo fizesse coisas que eu não lhe ordenava. (…) Deste temor insuperável a cegueira libertou-me".

"Não me agradam nada ou agradam-me demais. Agora, claro, livrei-me deles. Porque a cegueira é um modo drástico de apagar os espelhos".

Jorge Luís Borges

Nonsense

hoje acordei despetalada. olhei-me no espelho sem me ver a face, pois recusei a muleta dos óculos. acordei triste, e já dizia o roqueiro tupiniquim nos versos infantis: " eu não nasci de óculos, se estou triste eu tiro os óculos e não vejo ninguém"
nem eu.
em meio a onda de dor que me atingiu, dor física, entenda. a tal que me rasga os músculos intercostais, como bem descreve o bom doutor que me alivia com seus remédios que nada remediam. mal remendam; segui pelas horas inválidas, buscando palavras para um poema, ou mesmo para uma carta que já há tanto tempo devo a resposta.
quis chorar, mas o coração machucado secou o leito dos olhos. e no caminho do meu pensamento, tinha uma pedra, uma montanha, um vulcão.
acendi um cigarro tentando decifrar na fumaça assassina, os segredos do futuro que já chegou. e nada me foi mostrado além do que já soubera no sonho de ontem à noite.
ouvi ao longe, o canto do bem-te-vi. mal te vi hoje quando saiu para o trabalho.
serenei o tremor nas mãos com uma xícara de café e me vesti de saudade de um tempo que nem sabia tão longe.
e é longa a distância entre estes dias tortuosos e aqueles apenas tortos. daqueles, eu trouxe as letras confusas, afogadas num papel azul-oceano. destes, ainda nem consegui salvar um minuto.
e enquanto observo o céu que se tinge de cinza (chove às vezes neste lado do Equador), ouço a realidade impressa que me chama da porta. é o despertador quem me acorda de mim.

albanegromonte

abril 30, 2011

Para Não Esquecer,





"A prosa é o diurno, a poesia é a noite: se alimenta de monstros e símbolos, é
a linguagem das sombras e dos abismos. Portanto, não há grande romance
 que em última instância, não seja poesia."


 Ernesto Sabato

abril 09, 2011

Para Quem Se Sabe

olhar este que se volta quando passa minha alma desnuda,
olhar que nem sei a cor, mas que me reconhece através do brilho apagado que exalo entre os fios de cabelo que soltam nos pentes agora.
olhar amigo, companheiro e que parece ter meus pensamentos descritos em pequenos dizeres que só eu ouço, que se transformam em força, que destroem meus medos, fazendo ruir as tristezas de outrora.
olhar que percebo em linha escritas quase em braille,
olhar que me impele e me faz crer que existem anjos,
e que à vezes eles estão perto demais para que se duvide que eles o são.
dois nomes para chamá-lo
e um só para senti-lo:
amigo.


albanegromonte



abril 06, 2011

Desfiguração (I)

canto da sala desta minha alma, exala escuridão e abandono.
do alto deste teto vermelho-sangue, segue pendurada que nem um enforcado, uma lâmpada queimada há tanto que já nem lembro a cor das paredes
e há paredes que me encarceram neste sentimento antigo que trava meus movimentos, mantendo presos meus abraços para você que chama da porta que não tem chave, onde há chumbo intransponível.
 e enquanto derramo as lágrimas esquecidas de um tempo que pensava morto e tão enterrado, retorno ao umbigo atávico e me dobro em paz que não chega, que não vem, que surda e muda se esvai pelos meus dedos com unhas roídas pelas perdas, pelo esquecimento, pela dor de não querer e ter, que voltar a não-ser.
estou eu.


albanegromonte