novembro 26, 2010

Um Achado



para Maat, que me estimula os achares e de quem  sempre espero a resposta.




Venho desta forma solicitar ao leitor 
uma cabeça de martelo 
para que por caridade 
me sejam arrancados das costas 
todos os pregos que o tempo aí me pregou 

Pregos para pendurar retratos 
talvez de coisas tristes 
talvez de coisas alegres 

Peço-lhe que o faça com extrema delicadeza 
de modo a que um dia 
me seja possível coçar as costas 
sem estar preocupado 
com crostas ou cicatrizes 

Venho pois caro leitor 
pedir-lhe depurada mestria 
ao arrancar-me todos os pregos 
que a vida me pregou nas costas 

Pregos veja-se bem 
que têm servido tão-somente 
para pendurar quadros 
talvez de naturezas mortas 
talvez de paisagens sem título 

Não leve a mal o pedido 
trata-se de caridade devida 
ou não fosse também o caro leitor 
um desses pregos 
que o destino me pregou nas costas 
com irrepreensível precisão 

Antoni Tàpies 

10 comentários:

M. disse...

A este leitor...podes pedir isso e muito mais!

Ivan disse...

Nada mais justo... coisa linda essa poesia... Abraço

Cadinho RoCo disse...

Ao desprendimento o despregar-se dos pregos pregados pelo tempo.
Cadinho RoCo

Lady Cronopio disse...

M.
Na verdade é tanto que já recebo de vocês...
Beijos

Lady Cronopio disse...

Ivan,
Diga se não foi mesmo uma coisa linda achar esta poesia assim jogada ao acaso?
Fico feliz que tenha gostado.

Lady Cronopio disse...

Cadinho RoCo.
Seu dizer soa que nem um verso.
Seu blog é belíssimo!
Agora me conte: como veio ter aqui?
Muito me honrou sua visita.

Djabal disse...

"Um homem catava pregos no chão.

Sempre os encontrava deitados de comprido, ou de lado, ou de joelhos no chão.

Nunca de ponta.

Assim eles não furam mais - o homem pensava.

Eles não exercem mais a função de pregar.

São patrimônios inúteis da humanidade.

Ganharam o privilégio do abandono.

O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados.

Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.

Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.

Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.

Garante a soberania de Ser mais do que Ter."

A imagem dos pregos e de uma cabeça para arrancá-los, me deixou paralisado entre a ação e a inação. Procurei meu amigo de todas as horas Manoel de Barros, ele me poetisou a solução, que serve de epígrafe salvadora.
Poetas e poesias todas puras e que venham os pregos.
Beijos e alegria e paz.

M. disse...

Então? Saudades de ti.

Está tudo bem contigo?

Sem me querer meter...

Lady Cronopio disse...

Djabal, é por essas e outras...
Beijos e toda aquela coisa.

Lady Cronopio disse...

M, querida!
Saudades também.
Estive fora, numa pequena viagem.
Já de volta.
Daqui a pouco, posts especiais.
Beijos
ps: e pode se meter, ora...