abril 03, 2008

Mea Culpa



Venus in the mirror, Diego Velasquez


um dia acreditei nas palavras que se amontoavam nos papéis à minha frente, e chamei de Poesia. encantada e desavisada, fui vivendo por aí, versos soltos em linhas de todos os sentimentos que me cabiam neste Tempo de existir. dragões, sereias, prostitutas,centauros, vampira, Eva, beija-flor, arcos&lírios, tatuagem, loucura, dor, paixão que doía, paixão que fazia tanto bem fora da dor, mendigo, Pessoa, gatos, Bandeira, ursos caolhos, quadrilha, cio, desejo, fotografias, queixas, janelas, adagas, hibiscos, lótus, lamentos, pedidos, falhas, porquês, vinho tinto, sangue, cigarros, cigana, destino, beijos ditos, os cinco sentidos, os sete pecados, os três mosqueteiros, os dez mandamentos, Dom Quixote, Alice, Clarice, desenho em giz no quadro negro da minha memória... palavras se colando caladas nas noites e nos dias que se iam, que se voltavam vez em quando sobre os ombros carregando o peso do mundo, remoendo passado morto, desenterrando ossos, negando certezas e semeando dúvidas. palavras que até em pedras jogadas na Lua, se transmutaram, quando eram de fato, anéis de planeta, bolha de sabão, vento sem cor a romper as cores todas da aurora que anuncia-se todos os dias em asas de anjo inquieto pelas frestas da minha janela...
noutro dia, me vendo no reflexo da vidraça, ela se apresentou.
de cor, relembrou tudo que eu nem lembrava ter escrito.
e depois, emocionada com tanto,
saiu do reflexo imaginado irreal, sentou-se a meu lado,
sussurrando como em prece...
Ricardo, Alberto, Bernardo...me ajudem nessa hora
- quanta ousadia, Fernando-
e de uma forma serena, esta mulher me tomou as mãos,
espalhou um grande sorriso azul
que caiu como uma luva sobre tudo que eu era,
e disse...
- acabou.
foi então neste outro dia, que eu descobri quem era de fato o personagem criado.
alter-ego, persona, heterônimo...
eu, sim, era quem morava do outro lado do espelho.
o negativo da foto.
a sombra.
a outra.
a que não tinha nome.
que não se conhecia, nem se sabia.
a que nunca nascera e que nunca morrerá.
neste outro dia, que agora se findava em lilás no outro lado da face
eu acreditei nesta verdade.
desde então não consigo mais poetar.

albanegromonte

4 comentários:

Djabal disse...

"The man bent over his guitar,
A shearsman of sorts. The day was green.

They said, "You have a blue guitar,
You do not play things as they are."

The man replied, "Things as they are
Are changed upon the blue guitar."

And they said then, "But play, you must,
A tune beyond us, yet ourselves,

A tune upon the blue guitar
Of things exactly as they are."

- ou nas palavras de Paulo Henrique Britto -

"homem curvado sobre violão,
Como se fosse foice. Dia verde.

Disseram: 'É azul teu violão,
Não tocas as coisas tais como são'.

E o homem disse: 'As coisas tais como são
Se modificam sobre o violão'.

Eles disseram: 'Toca uma canção
Que esteja além de nós, mas seja nós,

No violão azul, toca a canção
Das coisas justamente como são".

Wallace Stevens.

Beijos.

Daisy Carvalho disse...

Esta do outro lado é sua parte melhor. A que faz soprar em ti tanta poesia. Quando leio você eu me renovo. Isso é poesia.
Beijo.

Lady Cronopio disse...

E o que mais dizer?
Silenciar apenas diante do poema-luz que me enviaste.
Aquela coisa toda e Beijos

Lady Cronopio disse...

Daisy...
O que seria da outra em mim, se você não estivesse por aqui?
Beijos!
E aquela coisa toda.