abril 03, 2008

Para Quem Sabe De Dores

revenant *

isso em mim
que hoje anseia partida
chamo de quase querer.
e é quase querendo
que salto do tigre que montava
liberto a ave azul que trazia no parapeito da janela
e deixo ir pro sul o sol morno que guardava no bolso da blusa- para aquecer o lado esquerdo do peito
onde havia um coração
e hoje mora um pequeno esquimó com seu pinguim de estimação.

atravesso a rua sem olhar o sinal
carro de vidros abertos
portas sem chaves
janelas sem proteção
fios elétricos desencapados.

meu revolver tem oito balas. seis no tambor e duas na minha mão
meu armário, sessenta e três comprimidos aditivados
minha gaveta, vinte e duas facas
minha bolsa, dois canivetes
mas não uso echarpes, não tenho forno a gás, não moro num nono andar em Copacabana, nenhum rio passa atrás da minha casa
ando às vezes na beira-mar, catando estrelas
vestindo um pijama e com um relógio de ouro no pulso esquerdo pra não me perder
no abismo que a Rainha das Águas cria em noites escuras

tenho medo de cachorros pequenos
mas crio um dragão embaixo da cama.
toda noite antes de dormir
dou uma volta na via-láctea pra ele não entrevar as asas.
meu dragão tem olhos cor de violeta
e me deu um anel de prata que uso no anular do pé esquerdo.

não há flores nos meus jarros.
nem peixes nos meus aquários
e há tantos livros que não li
que chego a ter medo de morrer, ou ficar cega antes de conhecê-los

um dia sonhei que era uma magnólia
e me deitava na relva com o orvalho a me acariciar
foi numa noite esquisita,
em que tive sono e dormi
mas acordei gente
e ainda mais cansada das horas

trago uma cruz de pedras no umbigo
e comprei um Fenix colorido
que vai morar na minha nuca

tem dias que parecem inverdade
de tão tristonhos e escuros
nestes dias
eu ergo uma taça de vinho
brindo a todos os enganos que tive
releio um poema de Bandeira
folheio Cortazar
acendo um cigarro
e espero a dor passar.

a dor nunca me criou morada.
disso eu sempre soube, mas não dizia.
aranhas não cabem neste coração marcado, mas guerreiro.

albanegromonte

*revenant: termo francês, sem correlato em português, que significa "aquele que está de volta", "aquele que volta da morte"

5 comentários:

david santos disse...

Belo texto!
Ainda que nem todas as pessoas pensem que não, a vida e a morte, não escapam!
"Todos os que cá estão e todos os que virão um dia partirão"
David Santos.
Quanto ao link, pois é claro que pode.
Abraços.

Djabal disse...

Tenho uma ótima receita para o dragão que está sob a cama:
Ele, segundo as lendas orientais, contadas por Borges, tem uma pérola no pescoço, e ao ser retirada faz com que ele perca totalmente a força e se torna uma animal dócil e afável, que normalmente - agora digo-o - ajuda a pensar Das Dores.
A magnólia assume a cor dos seus olhos e tudo ficará mais fácil e desarmado. Todos os fios se encaparão, e o dragão só assustará aos outros.
Bjs.

Daisy Carvalho disse...

Eu gostaria de ter escrito este texto. Ele � maravilhoso e descreve muito bem o interior do poeta aflito. Lindo.
Beijo.

Lady Cronopio disse...

Djabal, seu conselho me inspirou outro escrito.
Logo mais estará aqui, e dedicado a você.
Non Liquet.
Aquela toda coisa e beijos

Lady Cronopio disse...

Daisy, querida, seuas palavras sempre me deixam cuidadosa quanto ao próximo escrito.
Grata pela atenção toda.
Beijos e aquela coisa toda.