janeiro 24, 2007

Road In December


e como da primeira y segunda vez, em meses distantes em números pares e discretamente redondos, te espero com velas y incensos mais poderosos que a fumaça do teu cigarro. and, sem blues e jazz, pois ainda não sei se dura um poema esta nossa história, deixo que o silêncio fale por mim e te diga que sim. é bom você rasgar o céu no pássaro de plata y me chegar furacão, dizendo obscenidades no meu ouvido e se abrindo inteira para minhas retinas atrevidas de ojos que tudo viram e que mais um pouco não fará nenhum mal. abro as portas da casa, indico o labirinto que leva até a minha cama. e você, sem perguntas quaisquer que me façam dizer "que diabos foi isso que eu fiz?", toma banho com óleos dourados que tornam sua pele morena ainda mais macia&cheirosa, beija minha boca aberta e passando a língua na borda da taça de vinho, me diz em silêncio também que sou o que mais quer neste momento. e posso ouvir seu coração batendo dentro da blusa transparente e diáfana, como o manto com que queria cobrir tua nudez, que agora me incomoda, com tanta firmeza e maturidade, que nem sei mesmo como ensinar o que você diz não saber, mas faz, como se fosse gueixa, puta ou deusa. e tenho medo de beijar seus pés e de fazer noventa e oito fotografias do teu corpo sereno&calmo depois do gozo que ilumina teus olhos e eu me vejo dentro deles como se fosse o primeiro ou o último homem criado pelo deus crucificado que trazes no pescoço e no umbigo que beijo e bebo como cálice de cicuta dado ao prisioneiro condenado à morte, para que não sofra com o fogo, com as flechas, com a dor. e será dor que sentirei quando chegar o dia em que montarás nas asas do pegasus prateado que te levará à cidade do sol, dos rios cortando as ruas, dos mangues, frevos e maracatus? não sei. sei que queria ser outro, que pudesse escrever na tua pele um poema destes azulados, calientes e tão vero que te deixasse com vontade de voltar. mas eu sei, que na roda do calendário haverá um outro dia, em que tua voz me dirá "estoy ca" e tua presença plena de tudo encherá os pequenos vazios que nem sabia existir no meu canto. e eu certamente acenderei velas y incensos, te darei vinho e chocolate, darei risada do presente estranho que me trouxeres, e brincarei com teus cabelos longos, com tuas coxas grossas e beijarei tua boca com saudade, e te cobrirei com algum lençol que achar pela casa, para que não andes com alma tão nua. e não sei se será neste terceiro ou quarto encontro do teu corpo na minha cama, que me renderei a teu encanto, e te darei um solo de joplin, te direi um poema de Chacal, te enrolarei no sudário que guardo há séculos e dançarei só contigo sob a luz da lua e dos olhos dos gatos da rua, a dança das tribos antigas de onde viemos e pra onde voltaremos se eu um dia, decidir te amar. aí, chegará o dia de tua partida, e eu te pedirei:fica, quero ser feliz com você.

albanegromonte

Resposta

tua pele
cristal de Lua
que chega pros meus olhos
a cada mês que me afasta de ti
tua língua inesperada
em começo de madrugada
com mãos e cheiro
a me tomar corpo&alma
olhar ardosia encantador de serpentes
falando esperanto
em spanish lips
me beija e aquece a cada noite
como se ainda estivesse dentro de mim
e eu boca aberta e sedenta
sussurro a cada estrela que cai
teu nome
segredo sagrado
no meu grito mudo pelo mundo
que nos mantém longe

albanegromonte

dezembro 17, 2006

Tu

entre as notícias loucas que povoam jornais&TV, eu antecipo teu sorriso e só assim, posso continuar o dia que mal começou num sinal fechado com um pivete me ameaçando através da película escura que encobre os vidros do meu carro. não me assustei quanto devia, pois o tormento dos dias que se seguem são tão claramente violentos que tudo já parece trivial por baixo dos meus cílios. liguei o rádio e ouvi uma canção do Chico que fala de um amor guardado através dos tempos, a ser descoberto por escafandristas do futuro. pensei em nós e nessa ausência de tudo que é normal que nos acompanha... não sei teu cheiro, não me conheces o hálito. queria tocar tua pele, teu braço e peito de remador. queria minha cabeça no teu ombro e minha voz minha voz reconhecida no teu ouvido. ah, mas eu também queria tuas mãos torturando minha pele, encontrando as cicatrizes da alma e da palma da minha mão, onde um dia a cigana te leu na minha vida: quando tudo parecesse deserto e findo. ponto e vírgula para dizer que sim, já sei como te ver através dos minutos poucos que tenho de ti. estou de malas prontas e o navio me espera, pra cruzar o atlântico, através de mares&ares, até te chegar e encontrar em meio a uma orgia de palavras&gentes que nem sei se irás me reconhecer: eu uso óculos, não sei se sabias, e mal enxergo sem eles, ou preciso estar nua para poder ver o que me passa através do desejo e da dor desta saudade tensa e insana que me corrompe os dias e sóis, atravessando minha carne feito lança de herói, ou suspiro ventania de faca de atirador de circo que amador que é me atinge coração adentro, te encontrando deitado sobre a minha nuca,sobre minha longa cabeleira com mechas castanhas douradas pelo sol da minha metrópole cravada entre dois rios e que proclama a fome e a dor de ser pobre num país pobre, católico por invasão e incrédulo de tudo ao saber de mim e de ti, assim tão absolutamente desconhecidos e amados, e desejados e queridos... ah, meu rei, se um dia cruzar contigo na saleta de um aeroporto de uma pequena cidade no Japão, eu te reconhecerei. mas e tu? saberás que sou eu aquela que exala rosas em cada passo, mas que acende um cigarro atrás do outro enquanto fustiga as páginas de um livro de poesia e marca com caneta lilás o que acha mais bonito pra amanhã ou depois te repetir através da galáxia láctea ou azul que é a cor do meu jardim, que por hora não aflora pela imensa falta que faz esta tua voz quente aqui no meu labirinto de ouvir.

albanegromonte

Promessa De Estrela


Este foi escrito sobre um mote de Manuel Bandeira. Outro dos meus adorados poetas.

Enquanto brilha em fagulhas aéreas, etéreas a estrela do meu ser, adormece em meu colo o sonho de te ter um dia, quem sabe, além deste telescópio desatinado onde abrigo teu riso e teu segredo, agora também meu estrela cadente, caída, citada no meu verso reverso e transverso que fala de ti, para ti meu bem-querer tão doido, doído e desencontrado. pinto um quadro com tuas cores e espelho no chão em ponta de estrela fugitiva, fugidia que se esculpe em sombras e mármore, que se esconde na fotografia instantânea onde vi teu peito nu, e descalço os pés e piso em pétalas, em correnteza de rio que se encontra com o mar na vertigem de uma onda mansa e louca que desmaia na areia onde vejo o grão da saudade que me invade da tua voz rouca, da tua voz que atravessa o espaço vítreo e virtual das fontes cristalinas onde as páginas do livro que não li se amontoam molhadas e as palavras todas que tinha para te dizer, o que, já não sei, fogem, escapolem em epígrafe, prefácio, legendas e lendas, e eu no olho de furacão tão sereno, enquanto o mundo todo se dana, sigo esperando que este sentimento que não sei qual é se solte ou se amordace, se vá ou se deixe ficar no balanço das horas, no suor fino que salta dos meus poros quando te acho onde nunca te vi, ou senti, tanto faz, pois fecho os os olhos e lá estará tu... e meu gemido abissal com os olhos fechados e com todos os sonhos abertos... e a música não pára e a música não deixa que eu te esqueça, e é o blues que tocou no filme, e é o quadrinho animado, a pérola que se perde no tapete, o bicho de pelúcia sorridente ante a vela e o incenso que meu anjo pediu... enigma de estrela vadiando em meu céu cortado por um jato, por um pássaro de luto, minha janela lateral que se abre para o Atlântico, e o mundo é tão grande ... mas ainda vou te encontrar, minha prenda, estrela da vida que eu queria ter e terei. Eu sei.

albanegromonte

Dark Side


Um lamento numa madrugada qualquer

... eis que trava o fel no meu coração, o silêncio tumular que sopra agonias várias em meus ouvidos. e eu, que já não sabia o que fazer com este sentir estranho, acumulado no peito, deságuo através dos meus olhos envidraçados, as lembranças tolas que guardo nas retinas fotográficas que trago no meio do rosto-o tal terceiro olho de que tanto se fala, o lendário sexto sentido feminino, a marca das bruxas queimadas naquela inquisição abençoada pela santa igreja que hoje se ajoelha diante das tormentas do homem. eis que minha alma infantil, contadora de histórias e canções de amor despedaçado, infiltra-se de bolor e cansaço, coitada, vergando-se ao sabor da tua tormentosa presença em minha mente, do que nunca foi vivido e que, nem se sabia ao certo se seria, num certo rodar de planetas, quando a lua mudasse de estratégia e brilhasse única no céu da tua cidade. eis que levanto uma taça de vinho tinto e brindo ao nosso desamor. - na verdade, ao meu desamor- eis que as árvores entristecidas da avenida que passa ao lado da minha casa, murmuram afagos que não sinto, tão plena desta falta de não sei-o-quê-ou-se... eis que mais uma vez, vence o dragão da solidão, e me vejo rasgando tua foto imaginária que carrego no bolso da velha calça jeans. eis que a madrugada se vai antes que meu sono chegue e na TV passa um filme que fala de uma dor que nunca sentirei, graças ao vazio desértico das minhas entranhas, agora ainda mais áridas, depois que te arranco ávida de não mais sentir dor da serena memória dos planos que tive de um dia poder te amar.

albanegromonte

Oito Linhas

abandonado assim nos meus braços, ele diz que volta. acordado, sai devagar e delicado como quem pisa num coração. surto de ternura, e ele cobre meu corpo nu, dá comida pro gato, e se vai. meio da noite ou meia-noite? tanto faz, se o que importa mesmo é que ele não estará comigo quando o sol invadir o meu quarto, queimando minha perna que insiste em sair do lençol, queimando as lembranças todas da noite e secando a lágrima tola que me abre os olhos todas as manhãs. mas chega a noite, e eu nunca acredito no que vi.

albanegromonte