junho 24, 2015

Quarta da Poesia



Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas -
quase como a terra

após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.


A alegria que ontem foi angústia,
tempestade -
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.


Antonia Pozzi (1912-1938)

Tradução: Inês Dias

fevereiro 28, 2015

Eu guardo sim.
Que nem toda a gente, um amor que nunca foi.
Bem dentro do peito, escondido, disfarçado de nada, mas que salta  em noites que nem hoje
Pra fora de tudo dizendo baixinho:
-saudade.
Sim, eu guardo este amor e
sigo em frente fingindo que não é nada este pulo do coração, este frio na barriga e tudo mais que significaria, se fosse ainda, amor.
E um dia foi, eu sei


Eu guardo sim.
Não sei o porquê, não sei desde quando e nem até quando.
Fica por ali, entre as memórias gastas, nas gavetas que custo a abrir, nas canções de um dia que já nem sei, num poema gasto, numa risada qualquer.

Guardo sim. Para nada, para tudo, para um dia quem sabe...

alba negromonte

dezembro 06, 2013


O Prazer da Escrita


Por que a palavra corça surge em meio a esse bosque escrito?
Para bebericar água da primavera descrita
cuja superfície copiará seu focinho mole?
Por que ela levanta a cabeça; será que ouve alguma coisa?
Debruçada sobre quatro pernas finas emprestadas da verdade,
ela pica até as orelhas sob os meus dedos.
Silêncio - esta palavra também se agita por toda a página
e parte os ramos
que surgiram a partir da palavra "bosque".
De emboscada, definidas para atacar a página em branco,
estão palavras não muito boas,garras de cláusulas tão subordinadas
que nunca irão deixá-la ir embora.
Cada gota de tinta contém um suprimento justo
de caçadores, equipados com olhos apertados por trás de suas vistas,
preparados para mergulhar a inclinada caneta a qualquer momento,
cercar a corça e lentamente apontar as suas armas.
Eles se esquecem de que o que está aqui não é vida.
Outras leis, preto no branco, valem.
O piscar de olhos vai demorar tanto quanto eu disser,
e, se eu quiser, será dividido em pequenas eternidades
cheias de balas, paradas em pleno voo.
Nada vai acontecer, a menos que eu diga.
Sem a minha bênção, nem uma folha cairá,
nem uma lâmina de grama irá se dobrar sob aquele pequeno casco.

Há então um mundo
onde eu governe absolutamente o destino?
Um tempo que eu ligue com cadeias de sinais?
Uma existência tornada interminável sob meu lance?
O prazer da escrita.
O poder de preservação.Vingança de uma mão mortal 


Wisława Szymborska (1923-2012).

agosto 22, 2013

A Solidão e a sua Porta



         A Francisco Brennand

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha).

Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal se resta a vida

com tudo que é insolvente e provisóriio
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o contraditório.

                       Carlos Pena Filho in  Livro Geral, 1969

junho 07, 2013

Margarida Ferra


Escreve sempre que precisares de me dizer
que há gelo nas tuas mãos e nas paredes do frigorífico.
Os legumes que trouxe ontem
não sobrevivem a mais do que uma geada,
muito menos nós.

Escreve sempre que precisares, podes
dizer-me outra vez que nunca houve inverno,
que este ano não há verão,
que estamos aqui e não estamos porque não sabemos
se somos nós ou se somos aquelas
quatro pessoas que vão à rua agora,
encontraram a porta certa.

Escreve sempre que precisares, faz
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares
de mais um postal com selo e carimbo.
Escreve sempre que riscares
na tua agenda mais uma morada.

Sempre que eu precisar vais devolver-me
uma caligrafia rebuscada que não é a tua,
curvas a mais que não fazias na letra d.
Já não há desses manuscritos,
só eu e os carteiros aprendemos a decifrá-los
(e toda a gente sabe que nem isso é verdade).
Vai escrevendo. Sempre que eu precisar,
as frases podem desviar deixas decoradas,
repetidas como as mentiras,
demasiado gastas para serem inócuas.





Margarida Ferra




Aqui

... se fosse por querer, já estaria de volta, mas nem sempre a vontade se faz, quando o desejo se oculta dele mesmo.
então tiro os sapatos, e piso devagar nos tapetes que escolhi por aqui um dia.
faz tanto tempo que nem sei bem como se faz.
arranco dos dedos a palavra que minha alma cansada envia, e sigo cortando as amarras com os dentes.
o espelho onde me via, apaga-se no escuro
e mal me reconheço na minha própria memória.
sou um arremedo de mim.
garatuja infantil com buracos em lugar dos olhos, traço raso em vez de lábios, braços e pernas de palito, cabelos riscados a carvão.
muda, procuro a voz perdida nos dias que se foram.
era eu, uma. vento bom me trouxe a paz.
a outra, esta, retorcida em pàlida lembrança segue em volteios azuis, enquanto se busca nos escombros da guerra que se trava neste meu coração por hora tão sem rumo ao redor de mim.