junho 13, 2011

feliz aniversário, Pessoa







O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...


Alberto Caeiro

5 comentários:

M. disse...

Há poucas Pessoas assim:) Um privilégios para nós que o lemos:)

Lady Cronopio disse...

Com certeza, M.
Pessoa é alguém que não se explica. Ama-se e pronto!
Beijos

Ivan disse...

Uma das maiores vantagens de entender a língua portuguesa é poder ler Fernando Pessoa.

Lady Cronopio disse...

M., Pessoas assim às vezes tão perto nos dão a garantia da existência do tal arquiteto que ele (O Pessoa) tanto falava.
Beijos

Lady Cronopio disse...

Ivan, que belo comentário!!!
Beijos