outubro 28, 2010
Frenesi
eu trago a noite no peito
e nos pés arrasto uma fenda no Tempo
argumento com a Lua, a desnecessidade deste brilho
- há um oco de doçura em minha boca, que não sei de onde vem
e cuspo fora para sentir o amargo do ébano mastigado pelos dentes que doem.
incerto atalho me surge em frente
"minha-mãe-disse-que-eu-fosse-por-aqui!"
arranco um cogumelo esverdeado na margem da estrada e sigo por onde minha mãe não mandaria
vento rasante espalha nuvens cor de chumbo e vela derretida sobre minha cabeça
é hora de chorar.
mas não.
arrasto o braço que se liga ao coração e desnudo a pele para não sentir mais nada.
engulo flores secas, dardos envenenados e maldições ciganas
não olho para trás.
atávico terror me arde nos olhos e um desasossego me enche os ouvidos
de nunca mais
solenes pássaros desfilam a meu lado
e minha gargalhada incolor se distrai nas brumas da minha loucura.
albanegromonte
Borges
"Não esqueçamos o Goofus Bird, pássaro que constrói o ninho ao contrário e que voa para trás, porque não lhe importa aonde vai, mas sim onde esteve.”
Borges in O Livro dos Seres Imaginários
Saudades de Alice
Por fim, pensou que a sua irmã pequenina havia também ela de vir a ser uma Senhora; e em como ela guardaria para sempre o coração simples e doce da infância; e em como ela reuniria crianças em seu redor e, por sua vez, lhes faria os olhos brilhar com histórias que lhes contaria, talvez até mesmo o sonho do País das Maravilhas; como ela compreenderia os seus pequenos problemas e as suas pequenas alegrias, recordando a sua própria infância e os dias felizes do verão".
Lewis Carroll
outubro 27, 2010
O Filho do Ar
Uma descoberta assim, vale mesmo sendo tarde...
e se eu nunca pusesse os olhos neste poema?
A mãe abre a sombrinha e diz: «Meu filho, avança.»
Um cigano veloz e livre como a dança,
agudo como o raio e como ele feroz,
vê, porém, lá ao longe, a criança que foge,
brincando distraída, sem que a sombrinha branca
a abrigue.
«Socorro», grita a mãe. A criança
perdeu-se, todavia, na névoa da distância.
Podes ameaçar, suplicar, nada serve:
o teu filho fugiu nos braços da quimera.
Ela já tem a voz cansada de chamar:
o filho cai no fundo dum tinteiro, a sonhar.
E noutro sonho julga que entrou, ao acordar:
está na casa onde vivem as crianças raptadas,
como a Ursa Maior, de estrelas construída,
sempre pronta a partir, sempre pronta a parar
- uma casa espantosa, sobre rodas erguida.
E a mãe não sossega, e a mãe já está rouca,
a mãe soluça e volta sempre atrás, como louca,
procurando o seu filho e sem o encontrar.
Desesperada, em vão ela chama a polícia:
o raio e os ladrões têm igual malícia;
a polícia, aliás, não tem um grande faro
e os meninos roubados sabem andar no ar.
Logo pela manhã, ousam a temerosa
travessia no arame, de maillot cor-de-rosa.
Para terem sucesso, quanta calma e perícia!
E a mãe está sentada, de luto, muito triste,
sentada, muito triste, encostada à janela.
É como se o menino não fosse filho dela:
eles surgem de súbito, os meninos raptados,
no campo dos ciganos, à volta da fogueira,
ninguém sabe daonde, onde foram roubados.
Têm direito a vinho, se se faz bom dinheiro.
Ele toca o tambor, ele voa. A mãe morre.
É vasto o mundo - e novo, nocturno, perturbante.
Ó mães, desconfiai das janelas, das portas,
dos feitiços daqueles que os filhos vos transportam
para casas que vão por montes e barrancos,
puxadas pela luz de dois cavalos brancos.
Jean Cocteau
Um cigano veloz e livre como a dança,
agudo como o raio e como ele feroz,
vê, porém, lá ao longe, a criança que foge,
brincando distraída, sem que a sombrinha branca
a abrigue.
«Socorro», grita a mãe. A criança
perdeu-se, todavia, na névoa da distância.
Podes ameaçar, suplicar, nada serve:
o teu filho fugiu nos braços da quimera.
Ela já tem a voz cansada de chamar:
o filho cai no fundo dum tinteiro, a sonhar.
E noutro sonho julga que entrou, ao acordar:
está na casa onde vivem as crianças raptadas,
como a Ursa Maior, de estrelas construída,
sempre pronta a partir, sempre pronta a parar
- uma casa espantosa, sobre rodas erguida.
E a mãe não sossega, e a mãe já está rouca,
a mãe soluça e volta sempre atrás, como louca,
procurando o seu filho e sem o encontrar.
Desesperada, em vão ela chama a polícia:
o raio e os ladrões têm igual malícia;
a polícia, aliás, não tem um grande faro
e os meninos roubados sabem andar no ar.
Logo pela manhã, ousam a temerosa
travessia no arame, de maillot cor-de-rosa.
Para terem sucesso, quanta calma e perícia!
E a mãe está sentada, de luto, muito triste,
sentada, muito triste, encostada à janela.
É como se o menino não fosse filho dela:
eles surgem de súbito, os meninos raptados,
no campo dos ciganos, à volta da fogueira,
ninguém sabe daonde, onde foram roubados.
Têm direito a vinho, se se faz bom dinheiro.
Ele toca o tambor, ele voa. A mãe morre.
É vasto o mundo - e novo, nocturno, perturbante.
Ó mães, desconfiai das janelas, das portas,
dos feitiços daqueles que os filhos vos transportam
para casas que vão por montes e barrancos,
puxadas pela luz de dois cavalos brancos.
Jean Cocteau
outubro 25, 2010
São Jorge
Revirando meus livros, encontrei um exemplar bem antigo
de O Marido do Doutor Pompeu, Luiz Fernando Veríssimo, e folheando as páginas, encontrei este poema. Gostei por tantas razões , que resolvi postá-lo.
Tentei o velho e bom truque copiar-colar via Google. Nâo é que existe um vazio nesta busca? Havia, melhor dizendo, pois agora está aqui, depois de uma furiosa digitação.
Para seu deleite, uma face interessante do mestre das crônicas&afins.
Disse a mãe
"oh, vida ingrata
sempre fui boa e beata.
Três gerei
e três criei
filhos três
da mesma tez.
Cada um igual ao irmão
- mesmo leite, mesmo pão-
do mesmo ventre parido
fruto do mesmo marido.
E aos três eu ensinei
que o diabo existe e Deus é rei
e santo é o que está, de gala,
no retrato lá da sala:
cumpridor e companheiro
meu São Jorge cavaleiro
matando por Deus o dragão
com uma lança no coração.
E cresceram na mesma casa
debaixo da mesma asa
penteados pro mesmo lado
devotos do mesmo quadro".
Disse a mãe
"oh, meu desvelo
o mais velho, um modelo!
Qur criança, que rapaz,
que adulto, que capaz.
Rezava feito louco
pra ser padre faltou pouco.
Vivia entre lírios e velas
e nunca saiu com... aquelas.
Sério e trabalhador
hoje é técnico contador
e conta os dias, sem preguiça,
pros domingos ir à missa.
Vive quieto no seu canto
é devoto do santo.
O menor é um parrudo
com cabelo à la Menudo.
Joga vôlei e futebol
e basquete e handebol
faz corridas e afins
ah, e hóquei sobre patins.
Não sabe ficar parado
e come como um danado.
Não é um intelectual
-graças a Deus é normal.
Era um devoto do retrato,
mas não do santo de fato.
O que realmente adorava
era o cavalo que o santo montava".
Disse a mãe
"oh, delegado
o do meio, que pecado.
Me saiu um desregrado.
Cresceu como um salafrário
afogando gato no aquário
beijando prima no armário
(ao menos não era o contrário).
Aos treze anos já tinha
cotas num galo de rinha.
E no entanto eu o vi
ainda pequeno- por aqui!-
na frente do quadro parado
e o seu rosto iluminado
pela luz da devoção.
E pensei não foi em vão
tanto tapa e oração...
E agora a confirmação
esta lança no coração.
O do meio é devoto do dragão!"
Luiz Fernando Veríssimo, em O Marido do Doutor Pompeu, 1987
outubro 05, 2010
Homenagem ao Mundo de K (Top Blog)
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Hamlet e o Triângulo
"A fantasia leva a fama de ser a louca da casa. Mas a ciência e a filosofia, que outras coisas são a não ser fantasia? O ponto matemático, o triângulo matemático, o átomo físico não possuiriam as exatas qualidades que os constituem se não fossem construções mentais... Que casualidade! O mesmo acontece com os personagens poéticos. É indubitável: o triângulo e Hamlet têm o mesmo pedigree. São filhos da louca da casa, fantasmagorias... O que se chama pensamento científico não é senão fantasia exata. ... Por pouco que se reflita, se verá que a realidade nunca é exata e que só pode ser exato o fantástico (o ponto matemático, o átomo, o conceito em geral e o personagem poético)".
E Por Falar Em Cronopio...
Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas, chuva de asas,
e eu sem pão para dar, tão somente
deixo-os vir. Talvez
seja isto uma árvore,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas, chuva de asas,
e eu sem pão para dar, tão somente
deixo-os vir. Talvez
seja isto uma árvore,
ou quem sabe,
o amor.
o amor.
Júlio Cortázar
Um Dos Sete
uma estrada em chamas,
coração que se evapora em lágrimas
saudade virando o avesso da alma
um deus que não responde longe que está
corda emperrada de relógio que insiste na hora de um adeus indevido
anel de um planeta sem nome
a recordar e tecer um manto de dor
vontade de se deixar ali, sem consolo
morrendo aos tantos
largando as pétalas da blusa rosa
pelos laços da ventania que já chega
sentidos violando leis naturais
pecados se misturando ao perdão concedido
um silencioso grito rasgando
a tarde e
um fio de sangue se misturando à morna areia
que reveste o chão da terra em que ela nasceu.
e onde agora se despede da vida que não escolheu
albanegromonte
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