outubro 25, 2010

São Jorge



Revirando meus livros, encontrei um exemplar bem antigo
de  O Marido do Doutor Pompeu, Luiz Fernando Veríssimo, e folheando as páginas, encontrei este poema. Gostei por tantas razões , que resolvi  postá-lo.
Tentei o  velho e bom truque copiar-colar via Google. Nâo é que  existe um vazio nesta busca? Havia, melhor dizendo, pois agora está aqui, depois de uma furiosa digitação.
Para seu deleite, uma face interessante do mestre das crônicas&afins.


Disse a mãe
"oh, vida ingrata
sempre fui boa e beata.
Três gerei
e três criei
filhos três
da mesma tez.
Cada um igual ao irmão
- mesmo leite, mesmo pão-
do mesmo ventre parido
fruto do mesmo marido.
E aos três eu ensinei
que o diabo existe e Deus é rei
e santo é o que está, de gala,
no retrato lá da sala:
cumpridor e companheiro
meu São Jorge cavaleiro
matando por Deus o dragão
com uma lança no coração.
E cresceram na mesma casa
debaixo da mesma asa
penteados pro mesmo lado
devotos do mesmo quadro".


Disse a mãe
"oh, meu desvelo
o mais velho, um modelo!
Qur criança, que rapaz,
que adulto, que capaz.
Rezava feito louco
pra ser padre faltou pouco.
Vivia entre lírios e velas
e nunca saiu com... aquelas.
Sério e trabalhador
hoje é técnico contador
e conta os dias, sem preguiça,
pros domingos ir à missa.
Vive quieto no seu canto
é devoto do santo.
O menor é um parrudo
com cabelo à la Menudo.
Joga vôlei e futebol
e basquete e handebol
faz corridas e afins
ah, e hóquei sobre patins.
Não sabe ficar parado
e come como um danado.
Não é um intelectual
-graças a Deus é normal.
Era um devoto do retrato,
mas não do santo de fato.
O que realmente adorava
era o cavalo que o santo montava".


Disse a mãe
"oh, delegado
o do meio, que pecado.
Me saiu um desregrado.
Cresceu como um salafrário
afogando gato no aquário
beijando prima no armário
(ao menos não era o contrário).
Aos treze anos já tinha
cotas num galo de rinha.
E no entanto eu o vi
ainda pequeno- por aqui!-
na frente do quadro parado
e o seu rosto iluminado
pela luz da devoção.
E pensei não foi em vão
tanto tapa e oração...
E agora a confirmação
esta lança no coração.
O do meio é devoto do dragão!"

Luiz Fernando Veríssimo, em O Marido do Doutor Pompeu, 1987

6 comentários:

M. disse...

Genial. Sem falsos ares de intelectualidade barata...e, como sempre, com um humor inteligente...

Djabal disse...

Simples como um passeio no parque. Sublime pela imperfeição. Filosofia do riso. Lembrou a cantiga de roda e Villa. Um letra de música. Beijos e a.c.t.

Lady Cronopio disse...

M.
Sempre uma alegria ver você por aqui. Sem dúvida, ainda que num escrito meio trágico, o humor sutil do Millôr faz-se presente.
Beijos

Lady Cronopio disse...

Djabal, pensei que já havíamos combinado que não poderia ler tão bem assim minhas entrelinhas.
Que coisa!
Creia-me, a primeira vontade que tive ao ler esta pérola "simples e imperfeita" (amei esta sua avaliação), foi correr pro violão e musicá-la!
Raios!!
Beijos e t.c.a.

Anônimo disse...

Amei ler isso!!!! Quando minha irmã era pequena decorou esta poesia para apresentação no Colégio. Logo toda a minha família decorou junto. Obrigada, nos trouxe lembranças boas.

osmar castagna disse...

que lindo poema! e por ser filho de Ogum, adorei ainda mais os versos que já moram em minha página do facebook, muito obrigado.
1 grande abraço,

the Osmar.