janeiro 05, 2010

Vidro



Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus poemas de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que eu gosto
O vento das ásvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jáz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo in Orla Marítima e Outros Poemas (Assírio&Alvim, 2008)

4 comentários:

Djabal disse...

O vento também trará o pólen da criação e fecundo lhe dará inspiração para novas escolhas e novas criações, que venha o Belo em forma da Lady, também. Beijos e a.c.t.

Lady Cronopio disse...

Ah, que desejo!!!
Grata, sempre.
Um escultor de palavras. Um gentleman.
Este é você e mais a.c.t.

Volta até Mim disse...

Adorei o teu blogue... obrigado

"Não caibo nesta tarde que me desfolhas
sobre o coração. Renovam-se-me sob os passos
todos os caminhos e o dia é uma página que lida
e soletrada descubro inatingível como o vento a rua e a vida
As mesmas mãos que antes desfraldavam
domésticas insígnias abaixo dos beirais
emprestam novos pássaros às árvores
Pétala a pétala chego à corola desta minha hora
Roubo meu sera qualquer outro tempo
não há em mim memória de alguma morte
em nenhum outro lugar me edifiquei
Arredondas à minha volta os lábios para me dizer
recuo de repente àquele princípio que em tua boca tive
Eu sei que só tu sabes o meu nome
tentar sabê-lo foi afinal o única
esforço importante da minha vida
Sinto-me olhado e não tenho mais ser
que ser visto por ti. Há no meu ombro lugar
para o teu cansaço e a minha altura é para ser medida
palmo a palmo pela tua mão ferida"


Ruy Belo

Lady Cronopio disse...

Ruy!
Não acredito que vejo você aqui...
Grata eu fico.
Sou fã. Você sabe.
Beijos