março 20, 2009

Tempestade


Escolho ao acaso um poema pra ler e
escondo a vontade entre as letras
aflita
de atravessar a noite buscando teu olhar mais uma vez
Chuva impiedosa bate na vidraça vento quente
taça de vinho quebrada e
a fumaça assassina velha companheira vai devorando pulmões
e pensamentos de ti
(trago o gargalo da garrafa nos lábios inquietos)
Bala doce com teu gosto
volteia minha língua descalça
Chamas incandescentes ardem meu corpo frio
que sente a falta do teu
(dedos mornos meus me buscam em lembranças firmes)
...
Cavalo alado do teu dorso passa pelos meus olhos fechados
em direção ao mar
Dragão do meu desejo se insinua pelo tornozelo nu
(traços destroços de paixão desmedida)
Vento lilás balança a árvore rósea e Cecília sorri pra mim

(Epigrama 11)

Tempestade se aproxima assustando as páginas do livro aberto
vírgulas engolidas pelo suicídio de quem leu e se foi
ou de quem foi sem ter direito a ler
por não saber ou por não querer ninguém saberá
Estas mãos que te renderam buscam no vazio a textura da pele
e o silêncio desta ausência de todas as ausências
ecoa no acorde que acorda a trilha sonora do compositor surdo
(e não é absurdo que alguém não ouça o que se melodia?)
Escolho ao acaso o poema pra não ler
paro na frase olho de furacão
Cecília chora não chora Cecília
Árida mente semente mente
Abro os olhos e fecho o livro
Apago a luz e acendo a loucura

albanegromonte

2 comentários:

Djabal disse...

Não. Não é absurdo que alguém não ouça o que se melodia.
A beleza ficou impregnada naquela mesma mente de ouvidos moucos.
Ela - a mente - se preencheu da presença que acabou por não perceber a ausência dos sons. A música ecoava e reverberava em sua mente plena da presença. Esqueceu-se da ausência e fez-se a música.
A beleza com que cantou a ausência se completou àquela que cantou a presença inaudível. Ambas foram tributárias do amor. Beijos e aquela coisa toda, menina.

Lady Cronopio disse...

Dio santo!
Eu mereço isso tudo?
Gratíssima.
Beijos