junho 26, 2008

O Grande Cronópio

Os Amantes



Quem os vê andar pela cidade
se todos estão cegos?
Eles se tomam as mãos: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a úmida palma, correm pelas falanges,
e acima a noite está cheia de olhos.

São os amantes, sua ilha flutua à deriva
rumo a mortes na relva, rumo a portos
que se abrem nos lençóis.
Tudo se desordena por entre eles,
tudo encontra seu signo escamoteado;
porém eles nem mesmo sabem
que enquanto rodam em sua amarga arena
há uma pausa na criação do nada
o tigre é um jardim que brinca.

Amanhece nos caminhões de lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre suas portas.
Os amantes cansados se fitam e se tocam
uma vez mais antes de haurir o dia.

Já estão vestidos, já se vão pela rua.
E só então,
quando estão mortos, quando estão vestidos,
é que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os seus deveres quotidianos.

Julio Cortazar

2 comentários:

Djabal disse...

A literatura é uma espécie de visão. Conversávamos em uma roda de amigos sobre isso, ontem.
Ontem também peguei o Bestiário nas mãos para ler.
Agora leio essa escolha fantástica que você fez, sentiu e publicou. Ainda há tempo antes dos cegos sairem. Aproveitemos. Bjs.(a.c.t.)

Lady Cronopio disse...

Caríssimo!
Ando com saudades.
Sempre grata por suas leituras e impulsos.
Beijos (a.c.t.)