dezembro 04, 2008

Los Amantes




"Weeping Nude," by Edvard Munch, oil on canvas,


Isso é tão bonito de ler, tão dolorosamente bem forjado que me deu vontade de chorar...
Para o seu olhar poético, Djabal.


Harux y Harix han decidido no levantarse más de la cama: se aman locamente, y no pueden alejarse el uno del otro más de sesenta, setenta centímetros. Así que lo mejor es quedarse en la cama, lejos de los llamados del mundo. Está todavía el teléfono, en la mesa de luz, que a veces suena interrumpiendo sus abrazos: son los parientes que llaman para saber si todo anda bien. Pero también estas llamadas telefónicas familiares se hacen cada vez más raras y lacónicas. Los amantes se levantan solamente para ir al baño, y no siempre; la cama está toda desarreglada, las sábanas gastadas, pero ellos no se dan cuenta, cada uno inmerso en la ola azul de los ojos del otro, sus miembros místicamente entrelazados.
La primera semana se alimentaron de galletitas, de las que se habían provisto abundantemente. Como se terminaron las galletitas, ahora se comen entre ellos. Anestesiados por el deseo, se arrancan grandes pedazos de carne con los dientes, entre dos besos se devoran la nariz o el dedo meñique, se beben el uno al otro la sangre; después, saciados, hacen de nuevo el amor, como pueden, y se duermen para volver a comenzar cuando despiertan. Han perdido la cuenta de los días y de las horas. No son lindos de ver, eso es cierto, ensangrentados, descuartizados, pegajosos; pero su amor está más allá de las convenciones.


Juan Rodolfo Wilcock

dezembro 02, 2008

Fendas

Flor em brasa queima a folha. Serena folha que não sabia dos calores que se davam nessas horas. Língua farta onde se farta de seiva doce e macia. Onda de desejo vendaval de cores e sonhos nunca planejados. Ela. Em pele, carne e osso, sobre seu corpo mais carne que quando não era batizada. Pecado extremo, que deus nenhum há de perdoar. Vigia da porta do inferno chama em canções medievais - venha... solte as amarras que a prendem... Cabelos se enrodilham em pêlos curtos e os seios duros e tensos se encontram em harmonia.Sintonia, sinfonia de quereres e arderes em claves de Mi e Sol. Sol que esfria ao vê-la em agonia de não temer o que deve... Escultura viva em meio ao desatino que é sempre ver o que não se quer, o que não se quis, o que não se acreditou ser capaz de existir... e ela existe. E dentro de você ela roda, que nem pião em mão de menino abençoado. Ela deita com você e acorda seus sonhos de mulher pacata, trazendo suores e prazeres, dando-lhe a mão que simboliza o tudo. E tudo é ela. Ela que se invade de luzes, calores e dores. Ela que quer sair do seu sonho, para viver em você no dia que amanhece através da cortina puída do que você quis ser um dia. Ela é você ontem, quando a dureza da vida engatava rés e primeiras avançando sinais e conceitos. Ela existe e mora ao lado da sua alma envelhecida pelos nãos que a vida lhe deu. Ela é o fim e começo de tudo. Dê-lhe a sua mão e todo sim será seu. E ele não terá mais vez neste sofrer em vão.



albanegromonte

Frida Mujer



Mi Diego:

Espejo de la noche.
Tus ojos espadas verdes dentro de mi carne. Ondas entre nuestras manos.
Todo tú en el espacio lleno de sonidos - en la sombra y en la luz.
Tú te llamarás AUXOCROMO el que capta el color. Yo CROMÓFORO - la que
da el color.
Tú eres todas las combinaciones de los números. la vida.
Mi deseo es entender la línea la forma la sombra el movimiento. Tú
llenas y yo recibo.
Tu palabra recorre todo el espacio y llega a mis células que son mis
astros y va a las tuyas que son mi luz.

Frida Kahlo

Tempos Idos



Bilhete


e é por mim e por ti,
que lanço fogo às vestes desta saudade invertida
e atiro aos pés da santa, as pedras que carregava no bolso
antes de entrar no mar.
é por nós, amor meu,
que gravito em torno de Mercúrio
deixando a Lua para teus olhos
por ti e por mim,
esqueço a última canção que ouvimos
o teu cheiro que ainda impregna os lençóis
a tua marca no meu corpo
tua imagem do outro lado do espelho onde sempre me vejo antes de sair para a luta diária.
crucifico as lembranças todas, tão tolas
em pérolas no pescoço
e recolho ao tambor a bala de prata
engasgo a pílula
o veneno
e me agarro no parapeito da janela antes de pousar no chão quente logo ali na frente
aguardo o sinal abrir
teu olhar surgir
(esta cidade nunca foi tão grande)
e nunca te vejo além da velha fotografia
ou da memória de tantos sóis poentes.
e é ainda teu gosto, que me vem na língua
quando atravesso o deserto sem luar e sem fim
tentando apenas te esquecer

albanegromonte

Aninha e Suas Pedras

Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

Cora Coralina (Outubro, 1981)

Filho de Peixe





- Amanhã faço dez anos, vou aproveitar bem este meu ultimo dia de nove anos.
Pausa, tristeza:
-Mamãe, minha alma não tem dez anos.
-Quanto tem?
-Só uns oito
- Não faz mal, é assim mesmo.
- Mas eu acho que se devia contar os anos pela alma. A gente dizia: aquele cara morreu com vinte anos de alma. E o cara tinha morrido mas era com setenta anos de corpo.

Clarice Lispector