julho 17, 2008

Sobre Coisas

tive todas as respostas, menos uma que me dissesse de ti o que sentes.
e no azulejo frio do banheiro, derrama-se a espuma do poema que te faria hoje, se não fosse ontem o teu silêncio de tudo.

(pousa na janela um rouxinol.
canta em si maior, a canção mais bela que meus ouvidos treinados em gritos de dor já ouviu nestes tantos anos de noites insones e cheias de sabedoria).

tenho todas as perguntas, menos aquela que me dará a resposta ansiada, desejada.
amaldiçoada pergunta que não chega até a ponta dos dedos que correm furiosos pela tela vazia, pela folha em branco que alça vôo pela janela em direção ao mar.
maldita resposta que te revelará a verdadeira face do desencanto de mim.
maldito querer esse que se chegou quando eu estava tão bem cá no escuro, com frio, morta de medo, mas sem a saudade incômoda do que nunca aconteceu e nem acontecerá.

uma mulher sobe as escadas do prédio arrastando as sandálias quebradas.
ponta de cigarro queima no tapete da sua sala e ela não sabe que morrerá queimada esta noite.
que o som dos tambores acolherá seus gritos de socorro, e antes que o dia termine
seu corpo carbonizado descerá ao Inferno envolto em brumas de um Avalon qualquer.

(diz-se que o Céu ou o Inferno, são a imagem poética que trazemos em nossas mentes desde o principio dos Tempos)

e não há cólera, trovão ou tempestade
que despetale a flor do esquecimento que brota no meu peito cheio de cicatrizes.
punhais de prata e balas de ouro, seguem zunindo meus lábios, e bebo um cálice de Absinto pra esquecer da dor
que é viver.

viver é difícil, perigoso e doloroso.
a vida nunca me foi fácil.
nunca vi Príncipe Encantado, nem tive nada caído do céu.
a não ser chuva, quando eu estava desprotegida e sem dinheiro pro taxi.

tem uma rua em Paris, que eu queria conhecer.
um filme com a Rita Hayworth que eu queria assistir.
um poema de Pessoa que nunca li.
um Cortazar que nunca tive.
mas não há tempo pra distrações.

a vida pesa e me leva pelas tormentas diárias, e
acordar cedo, dormir tarde, ouvir o barulho do motor, ter como carícia no final da noite dez travesseiros sobre a cama que amanhecem inesperedamente entre as pernas, é o que tenho pra correr, pra desesperar, pra me esperar.

a vida, meu amigo, dói pra quem não é santo nem puta.
a vida é revés.
é planta carnívora, esfinge de botequim: decifra-me e te devorarei do mesmo jeito, no final de tudo.
a vida é o prenúncio da Morte.
e a Morte é o descanso do guerreiro sem causa.
é a bandeira branca que se desfralda quando já não se aguenta o torpor, a miséria, a solidão e o sal das lágrimas derramadas já enche um pote de vidro.

a vida se esparrama pela ladeira, quebra os vasos onde guardamos as violetas, e se faz em cores de Almodóvar pelos vestidos de Frida Kahlo.
a vida exige um poema de Bernardo Soares (o heterônimo desprezado).
a vida quer ser filmada por Tarantino, estrelada por Jonh Turturro e Angelina Jolie.
a vida é uma página de jornal onde você lê seu obituário e não acredita que já se passou tanto tempo que você está do outro lado do espelho e o que está sendo vivido e morto agora, é apenas o reflexo invertido da soma das hipotenusas de Einstein, que são tão tristes quanto uma tela de Munch.

a vida, deste lado do espelho é a morte.
irmãs siamesas desde o Caos até o Apocalipse.
e só se desfazem em duas quando sempre foram unas, quando o nó do destino refaz o caminho desta hora até o dia em que você nasceu
e chorou pela primeira vez. como quem já sabia o que lhe esperava neste canto desgovernado, sem eira, sem porteira, nonada de Rosa 50 anos de incompreensão, e sem setas indicativas que é o Planeta Terra.

albanegromonte

2 comentários:

Clayton disse...

Alba-ALba gostei
muito e sempre vejo
mais como vc escreve verdadeiro
gostei mesmo e dançei catala
porque li Sobre Coisas

Lady Cronopio disse...

bom te ver por aqui.
sentabale e coisa toda