julho 28, 2008


penso o que há de mim em ti,
arranjo os trapos da alma e me transmuto em princesa
pressinto o tolo coração ambulante
que vende fiapos de luz como se fossem
pedaços de estrelas
previno-lhe, coração, que há perigo.
não há glórias no escancaro,
há finais que desmontam as cenas
e engolem os atores.
previno-lhe, coração: há poeira no rastro de cada cometa
ainda que seja de neon barato
mesmo que se acenda em vermelho na porta de
quarto qualquer de um bas-fond deste século passado,
que passa em dezenas de anos (ou nem tantos assim)
que se acha no breu do céu de uma cidade
que não conheço e nunca mais
feito o filho que não fiz
e que me olha hoje em algum recanto misterioso
residente incauto deste ventre infértil.
salve, salve!

e o que há de ti em mim além
do amargor do fel
do sangue coagulado na cruz
na pedra cristal que repousa no meu umbigo.
ai de ti, coração errante
sombra de Espanha em quixotescos quilombos
de nada que surgiram no meio do mar da África
onde dizem, Deus criou o mundo.
e cá onde estou nem sei mais se é mesmo
o ardor nos olhos
a fumaça de óleo diesel
ou a lágrima que desce pelo fio desencapado desta dor
que se refaz em soltas notas de um velho piano
desafinado que guardo
no desvão do meu quintal.
e não há em mim de ti sequer a lembrança
nem em ti restou de mim o cheiro do amor
que passou.
o último a sair daquela nossa escuridão?
eu.
e acendi a luz

albanegromonte

4 comentários:

Daisy Carvalho disse...

lindo e inspirado como sempre. parabéns poetisa arredia :)
beijo Alba.

Djabal disse...

Amor e Fúria. Um movimento que nos leva das profundidades da ausência à luminosidade da presença, até finalmente uma luz ser acesa, libertadora, inaurando novo caminho.Lindo como disse outra poeta.
Beijos.

Lady Cronopio disse...

Saudades, Dai!
Beijos

Lady Cronopio disse...

Djabal, como sempre, lendo bem nas entrelinhas.
Gratísima sempre por sua presença.
E saudades também, ora...
Beijos e a.c.t.