maio 03, 2008

Tempo


E por trás desta cortina que se chama tempo, eu te revi.
Meu antigo e quase amor de sempre.
Nem sei ao certo o que, mas.
Entre os semaforos que se diziam em números verdes, ou entre as lembranças azuis da minha mente dissoluta. Sei que te revi. Quase pude ouvir tua voz a me dizer baixinho, enquanto no chuveiro eu redesenhava notas e sons quaisquer que houveram entre nós.
"Meu passarinho"
E nunca mais eu fui.
Gaiolas douradas se partiram em mares e céus.
Nuvens de algodão doce. Amarga que nem fel era ou é esta vida que se passa sem tua alegria.
(sim, eu sei que nada era, além de desejo ou necessidade, mas... deixa que me engane e erre o alvo: fui feliz.)
Eu, teu passarinho emudecido em luas e nadas que se retraem em velas que se apagam ao sabor de outros sorrisos, pois.
Novidade, não sou. Saigon já se cantou em ouvidos que hoje me sentem em qualquer dissonância, mas que se corrije e pede mais que um trinar de pássaro cego.
Teria que ser eu, mais que outro pássaro que cantava por tantas outras razões além de amor pela voz?
Não sei.
O tempo, este Senhor que seria mais ou tão bonito quanto a cara/face do meu filho (dizia o baiano das mil caras/faces)
Este senhor se veio e me levou a pele lisa, o músculo exato, a doçura e a tentação;
Eu era, e se.
mas em ti, hoje sou o maduro ser. A fruta que não se corrompe e que espera sem ansiedade, o brotar da flor.
Eu sou a que te quis sempre, desde que.
Se não acreditavas e nem eu... éramos nós os que se rebelavam contra o insolúvel dilema: felizes, só se assim juntos.
Outra forma, não.
Mas se quisemos tentar, então.
Tempo que se refez em colunas de areia que esvaíram em taças invertidas sob pirâmides de compreensão.
Preço todo pago sem piedade.
Assim nós pagando em parcelas de nada, pois ruge e urge o tempo em nossas peles e átomos.
Tempo que se revê em linhas de face.
Espelhos nossos e noites que se passam indiferentes ao desejo de eternidade em nós.
Somos assim.
Eu aqui, olhos abertos perante o dia que se alvorece em horizontes de matos e rio atrás do quintal da nossa casa.
Tu que dormes envolto em quimeras insanas, em calores e ventos sob o cobertor, no escuro da janela que fecho pra te proteger do mundo que se anuncia em finais apoteóticos.
Meu útero diverso diz não, e meu coração, rosa de planeta em luvas de pelica, diz:
Sou, posso, e!
Mas nada que venha de esmola poderá ser de nós.
te digo adeus e percorro os caminhos antigos de uma saudade que se apaga em memórias de nada.
Sei.
E vou, para não mais em teu porto seguro peito
Ancorar cabeça que dói, que machuca e sente.
Nunca mais.
Para que sejas tu, amor meu, feliz.

albanegromonte

3 comentários:

Kovacs disse...

Fiquei muito sensibilizado com o seu comentário lá no meu mundo. Respondi por lá, mas precisava deixar umas palavras por aqui também. Eu e meu pai agradecemos de coração.

Djabal disse...

Quem
É o ser
Que vai nas-
Cer tão rente
Tão perto de mim
Que eu posso ouvir o ventre
Se abrindo e a escura corrente
Sobre o fantasma e o filho atrás do
Muro como o osso de um carriço?
No quarto cruento avesso
Ao fogo e ao jogo do tempo
E à cor do coração
Nenhum batismo
Só a escutidão
Abençoa
Que nas-
Ceu.

Dylan Thomas

Lady Cronopio disse...

Dio santo!
Este poema... Agora é minha vez: Você acha cada coisa...
Grata, gratíssim.
Sempre.
Beijos e a.c.t.