julho 22, 2006

Listening Creed





Não sei o que me corrói por dentro.
Que destrói aos poucos, a esperança e a atávica humana vontade de sobreviver.
Não sei que dor é esta que me acorda meio da noite
arrancando nacos da minha alma do meu coração emparedado- e gritos de mim, quando vejo olhos de fogo se agitando no meio da escura negra e violácea solidão do meu quarto.
Baile de morcegos
Máscaras de antigos rituais
Sangrentos altares
Punhais molhados agitando-se em insana coreografia e o Medo.
Instalando-se veloz e voraz pelo meu peito e mente, transmutando em mima sombra do que fui ou pensava ser.
Vermes lisos e vermelhos passeiam pela minha pele mas sentem sopro de vida e se recolhem no canto do quarto onde moram os donos dos pesadelos que me torturam noite e dia, implacáveis, honrados guerreiros do Mal
Como se eu houvesse criado o oitavo pecado capital.
E ainda o tivesse cometido.
Da minha janela vejo o Atlântico Sul que ladeia minha cidade
Um cachorro late como fosse um lobo virado para a Lua
Sirene de ambulância corta o silêncio
E os demônios se esvaem quando acendo a luz vaga do lume,
vagalume do meu teto
O Sol brilha agora no Japão e não tem pressa de chegar.
Nuvem baça se transforma em Anjo e fecho os olhos para não ver.
Não quero anjo a me proteger de mim.
(se ao menos tivesse certeza que anjos também têm suas guardas próprias)
Dou as costas ao que se destinava a me libertar de mim.
Ponteiros do relógio marcham devagar- e nem toda a poesia deste mundo me resgata do Inferno.
Não.
Não sei o que me corrói por dentro.
Se o sal das lágrimas todas que derramei por ti
Se a saudade do teu cheiro que nem sei mais
Da tua voz que não ouço.
Não sei que me destrói lenta e dolorosamentede dentro pra fora
E que não se reflete no espelho do quarto
Nem nas retinas de quem ainda se atreve a me amar.
Sei que há demônios a meu redor
Afiando foices.
Arrastando correntes.
Cavando buracos.A
cendendo fogueiras.
Sei que no salto fino do meu sapato destruo orquídeas recém-nascidas
nas frestas do asfalto
por onde passo sem saber pra onde, porque, por quem, para que?
Sei que trago a palavra de dor perdida num bilhete guardado na bolsa,
Palavra queVai magoar,
Vai ferir quem tentou
Mas sei também que a liberdade desta dor que me corrói e destrói
só terá fim com meu fim.
E que nem a orquídea despedaçada no asfalto quente pressinto o que já sabia.
Morri.
Ninguém percebeu.
Esqueceram de me enterrar.
E o vento desfolha as folhas da minha alma
E espalha pelas ruas da cidade o que de mim restar
Nas palavras que escrevi um dia.
No amor que te dei.
Na filha que não fiz.
Na contínua lágrima que rolava na minha face
Quando eu pensava
Que podia sonhar

albanegromonte

2 comentários:

Anônimo disse...

necessario verificar:)

freireligia disse...

"E o vento desfolha as folhas da minha alma
E espalha pelas ruas da cidade o que de mim restar
Nas palavras que escrevi um dia.
No amor que te dei.
[b]Na filha que não fiz."

Não,não...vc a fez!