dezembro 28, 2012
Ani Maami
Sim somos.
Alquimistas embaralhados?
Corujas perdidas?
Vampiros ameaçados?
O Sol se vem.
Se é Sol.
Se basta, ele.
A Nós, Trindade, resta o cansaço de Ser
e Estar em qualquer.
Direção ou trilho.
Trem ou Nuvem.
Não sei, e tu?
Quem escoa do Caldeirão a Magia suprema que nos une?
Ah!Mas em ti vamos nos encontrar.
Amanhece aqui deste lado.
O mar arrulha proezas de sereias e tritões.
Netuno se desfaz em galanteios a Iemanjá.
E eu ouço o Galo.
Canta, miserável dos Dias.
canta e me deixa fechar os olhos cansados de tudo.
Pra ver o Nada que se impõe nas letras atordoadas de Tudo
que se vão rede afora
como Poeta que dorme
e a Bruxa que sente
e eu, Mortal ou não?
Acendo a vela negra tinta de sangue violeta
que é a cor mais triste que há.
Disse a Maga, sábia de Julio no
Juego
de Amarelinha.
Evohé, Cortazar.
Salve a Trindade e abençoa em Nós
a secura e a ãnsia de sermos mais que sombras.
Aqui ou Lá.
Onde estão o que o sangue uniu
e eu sem sangue e com dores
me arremeto pra ser
a ponte
O vértice deste triãngulo que se fazem rocas de princesas
e que serei assim
deles o Sal.
Amém.
outubro 27, 2012
Os Três Mal-Amados
João Cabral de Melo Neto
Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas",Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.
outubro 07, 2012
Depois de tanto tempo...
... volto ao meu cantinho, onde me encontro com as palavras, imagens, canções e tudo mais que me emociona...
Foi um tanto de coisas passadas nesse ano de tempestades, trovões e desalinhamento de planetas...
Mas o desejo de estar aqui mais uma vez, é maior que qualquer assombro.
alba
Foi um tanto de coisas passadas nesse ano de tempestades, trovões e desalinhamento de planetas...
Mas o desejo de estar aqui mais uma vez, é maior que qualquer assombro.
alba
setembro 27, 2011
Oração
A flor se inclina através das cercas de metal, busca o fim da solidão.
Antecipa o desejo da mulher que passa, presa nas grades de uma solidão insuspeita.
Um olhar, um clique de camera,
E um súbito desejo nas duas...
Flor e mulher querem ter asas...
Antecipa o desejo da mulher que passa, presa nas grades de uma solidão insuspeita.
Um olhar, um clique de camera,
E um súbito desejo nas duas...
Flor e mulher querem ter asas...
agosto 30, 2011
Gengibre
"Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós".
Clarice Lispector
e então eu pinço de um escrito, o verso que queria te fazer.
ponto.
e não mais, além deste abismo que nos acena,
e nós, embalados pelas tantas dores já vividas e por todas as dificuldades com que a Vida já nos presenteou, atrasamos o passo, paramos bem na ponta, quando um impulso de vento qualquer poderia nos jogar além de lá...
e o que haveria depois?
que mutilação de sentir seria mais clara que todo este momento sagrado
que nos une a cada manhã que se abre com um bilhete trazido no bico de um pássaro louco, ou pelas pétalas da flor colhida no desenho da blusa que visto?
e todos esses instantes roubados de outros,
crescem e se tornam tempestades de saudades inexplicáveis e tudo se amplifica:
- a voz, a canção, o diário de um dia distante, a foto da criança desconhecida, um pedaço de caminho percorrido, o fragmento do livro não lido por puro ciúme de si mesmo...
e tanto mais se transforma em festa para meus olhos que só enxergam se vestidos pelas lentes (isto eu sei, que te preocupa)
mas vejo. vejo a ti, a tua sombra e teu desejo de estar aqui.
como eu sinto em mim, o crescer enlouquecido que nem ouso nomear
de tomar um trem, um avião, ou uma jangada despida de mapa,
só para olhar em teus olhos, fechá-los para te ver melhor, e te ouvir todas as histórias que existem, e que eu nem sonhava
e sim, sou Menina
perante a toda esta palavra que entre aturdida e emocionada, leio e abro o coração diante.
sei que haverá o dia.
amassado dia, que nem um poema de Blake, em que as configurações do Sr. V. não serão fortes o bastante para conter o riso que daremos, e o abraço que sonho em te dar.
Lady Cronopio,
Capítulo Antigo, Que Pode Ser Lido Hoje
e como da primeira y segunda vez, em meses distantes em números pares e discretamente redondos, te espero com velas y incensos mais poderosos que a fumaça do teu cigarro. and, sem blues e jazz, pois ainda não sei se dura um poema esta nossa história, deixo que o silêncio fale por mim e te diga que sim. é bom você rasgar o céu no pássaro de plata y me chegar furacão, dizendo obscenidades no meu ouvido e se abrindo inteira para minhas retinas atrevidas de ojos que tudo viram e que mais um pouco não fará nenhum mal. abro as portas da casa, indico o labirinto que leva até a minha cama. e você, sem perguntas quaisquer que me façam dizer "que diabos foi isso que eu fiz?", toma banho com óleos dourados que tornam sua pele morena ainda mais macia&cheirosa, beija minha boca aberta e passando a língua na borda da taça de vinho, me diz em silêncio também que sou o que mais quer neste momento. e posso ouvir seu coração batendo dentro da blusa transparente e diáfana, como o manto com que queria cobrir tua nudez, que agora me incomoda, com tanta firmeza e maturidade, que nem sei mesmo como ensinar o que você diz não saber, mas faz, como se fosse gueixa, puta ou deusa. e tenho medo de beijar seus pés e de fazer noventa e oito fotografias do teu corpo sereno&calmo depois do gozo que ilumina teus olhos e eu me vejo dentro deles como se fosse o primeiro ou o último homem criado pelo deus crucificado que trazes no pescoço e no umbigo que beijo e bebo como cálice de cicuta dado ao prisioneiro condenado à morte, para que não sofra com o fogo, com as flechas, com a dor. e será dor que sentirei quando chegar o dia em que montarás nas asas do pegasus prateado que te levará à cidade do sol, dos rios cortando as ruas, dos mangues, frevos e maracatus? não sei. sei que queria ser outro, que pudesse escrever na tua pele um poema destes azulados, calientes e tão vero que te deixasse com vontade de voltar. mas eu sei, que na roda do calendário haverá um outro dia, em que tua voz me dirá "estoy ca" e tua presença plena de tudo encherá os pequenos vazios que nem sabia existir no meu canto. e eu certamente acenderei velas y incensos, te darei vinho e chocolate, darei risada do presente estranho que me trouxeres, e brincarei com teus cabelos longos, com tuas coxas grossas e beijarei tua boca com saudade, e te cobrirei com algum lençol que achar pela casa, para que não andes com alma tão nua. e não sei se será neste terceiro ou quarto encontro do teu corpo na minha cama, que me renderei a teu encanto, e te darei um solo de joplin, te direi um poema de Chacal, te enrolarei no sudário que guardo há séculos e dançarei só contigo sob a luz da lua e dos olhos dos gatos da rua, a dança das tribos antigas de onde viemos e pra onde voltaremos se eu um dia, decidir te amar.aí, chegará o dia de tua partida, e eu te pedirei. fica, quero ser feliz com você.
albanegromonte
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