outubro 23, 2007

A Carta




Prezada Nena,

Espero que esta lhe encontre gozando de muita saúde, assim como todos os seus.

Nem três meses faz que a gente chegou aqui e já deu pra reparar que as diferenças daí são muitas, porém são muitas também as parecenças.

Este Rio de Janeiro é tão amostrado, Nena, que parece até que a gente tá na França de tanto canto lindo que aparece. Por outro lado, tem hora que dá pra jurar que aqui é aí, tamanha a desgraceira. O povo daqui, sendo rico ou sendo pobre, fala igualmente alto. Só não sei o motivo de tanta gritaria, se é falta de alegria ou se é falta de tristeza.

O Maracanã é grande mesmo, e se a pessoa for arrodear ele a pé leva bem meia hora, Nena.

A Lagoa por fora é uma beleza, infelizmente é estragada por dentro.

O que você não ia acreditar era em cada túnel, não sei quantos, devido ao fato de aqui ter muita pedra. O Cristo Redentor, quando acende lá em cima, é todinho o Cristo Redentor, exato como ele aparece nas novelas. Já o Pão de Açúcar, esse de fato são dois, o maior e o menor, mesmo tendo nome de um apenas. Se Nossa Senhora me der um tantinho assim mais de coragem, juro que ainda tomo aquele bonde.

O céu daqui fica muito mais perto do chão do que o daí. É só olhar pro topo dos prédios e lá está ele, parado, logo ali em cima, diariamente. Dia que tem nuvem só se enxerga o pé do morro. Noite que tem chuva só se escuta a choradeira.

A gente vai levando como Deus quer e consente, ora é uma coisa, ora outra, ora nem uma coisa nem outra, e é aí que o negócio pega. De trabalho mesmo só me apareceu uma faxina, dia de quarta, na casa de uma mulher que mora em Copacabana. Ela não paga muito não, em compensação tem tanta prata que dá até gosto limpar tudo e depois empilhar bem direitinho.

Avise a Neto que, quando as coisas melhorarem, eu começo a juntar dinheiro pra comprar o celular dele. Quem sabe até o fim do ano eu deposito uns duzentos. Mande dizer o número da conta, mas copie com cuidado, que de outra vez o algarismo veio errado e foi uma agonia de vai no banco e volta não sei quantas vezes, isso que você não avalia o tamanho da fila.

Não fosse a perna de mãe que não desincha nem com antibiótico nem com rezadeira, de resto tudo tá mais ou menos nos conformes. Só não sei dizer o que é pior, se é o custo de vida ou a saudade, pois aqui não tem cheiro de cana, Nena, e até hoje não vi um único pé de algaroba pra chorar mais eu, portanto tenho que chorar sozinha.

Eu continuo procurando um quarto grande que dê nós quatro dentro, pois morar de favor na casa dos outros, além de ser bastante desagradável, ainda por cima é ruim demais. Por mais que se ajude na despesa e no serviço, pensa que resolve? Olhe que se tem coisa que eu não sou é desagradecida, mas tia Carminha vive de cara feia, e as meninas reclamam de tudo, é um aperto danado, imagine só o desmantelo. Tem dia que eu me dano a andar cidade afora somente pra não escutar queixa por queixa. Esquecendo as desavenças, vai se indo.

Para o mês, Mariinha completa quinze anos. Na ausência de festa, faz-se um bolo. Ela está namorando um rapaz muito direito que toma conta de carro em rua de rico, embora eu pense que ela ainda não esqueceu Zé Geraldo aí do posto. Júnior arrumou emprego, mas desarrumou em seguida, e tá parado no momento. Eu mesma já repeti mais de mil vezes pra ele largar de ser desleixado e tratar logo de aprender a mexer em computador, pois hoje em dia quem não se entende com o dito não arranja nada decente nessa vida. Pelo visto ele puxou mesmo ao pai, inclusive na leseira.

Por falar no desinfeliz do pai dele, já bati a cidade inteira e ainda não encontrei o homem. Também, como é que eu ia adivinhar que o Rio de Janeiro era tão grande?Tenho pra mim que ele tava era me enganando o tempo todo com essa conversa de mandar buscar a gente no Natal, ou então não teria escrito o endereço errado, que essa tal rua que ele falou nem existe, Nena.

Se eu encontrar o triste, ligo a cobrar avisando. Dia de domingo é mais barato. Mesmo não encontrando, ligo de todo modo, uma vez que, com homem ou sem ele, a vida segue.

Nena, não se esqueça de aguar minhas plantas nem de dar de comer à Duquesa.

Deus lhe pague em dobro tudo que você fez por mim, por mãe e pelos meninos.

A sorte ajudando, dia desses eu tiro na raspadinha e mando passagem de leito pra você mais Neto virem conhecer o Rio. Reze daí que eu rezo de cá.

Dê lembranças minhas a todos e aceite todo o carinho da sua eterna amiga,

Doris.


Adriana Falcão

outubro 17, 2007

Fragmento De Carta.


Carta escrita por Manuel Bandeira a Mário de Andrade, na década de 30, relatando sessão musical comVilla-Lobos na casa deste último


"Depois do jantar, Villa cantou duas coisas de uma série de serestas que está compondo. A primeira é A Pobre Cega. A segunda é O Anjo da Guarda. A música do Anjo está matando, parece uma tarde que não acaba mais. Fiquei com os olhos cheios d'água e me atraquei com o Villa. Beijei-o. Que bruta comoção, puta merda! Quando ele diz: "um anjo moreno violento e bom - brasileiro" é tal e qual a minha irmã, Martha. A música é de uma simplicidade e uma elevação. Toda consoante, mas de técnica bem moderna. Imagine, o acompanhamento é um tema sincopado popular e, antes de começar o canto, o piano faz o floreio de violão. Começa o canto. Quando chega "ao pé de mim", há um AH!, e o piano faz um intermezzo movimentado e depois volta a baita melancolia do canto com que canta a melodia, que vai ficando suspenso. Eu senti uma felicidade! Vai demorar a se publicar, porque o Vila já vendeu a suíte para o Sampaio Araújo, que manda imprimir na Alemanha. Porém, eu arrumei com o Vila mandar tirar cópia para mim. Depois tirarei uma pra você, pois estou doido que você conheça".

Testamento

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros - perdi-os...
Tive amores - esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!

Manuel Bandeira
...el cronopio observa el cielo que desciende...

outubro 04, 2007

Julio

"Y despues de hacer todo que lo hacen, se levantan, se bañan, se entalcan, se perfuman, se peiñan, se visten, y así progresivamente van volviendo a ser lo que son."

Julio Cortázar Um certo Lucas
Buenos Aires.
EditorialSudamericano, 1979

outubro 03, 2007

Um Chamado João


"João era fabulista?

fabuloso?
fábula?

Sertão místico disparando

no exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha

a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?

Um estranho chamado João

para disfarçar, para farçar

o que não ousamos compreender?

Tinha pastos, buritis plantados

no apartamento?

no peito?

Vegetal ele era ou passarinho

sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro

e todos os artistas

no mesmo papel,
ciranda multívoca?

João era tudo?

tudo escondido, florindo

como flor é flor, mesmo não semeada?

Mapa com acidentes

deslizando para fora, falando?

Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?

sem misturar, sem conflitar?

E de cada gota redigia nome,
curva, fim,e no destinado geral

seu fado era saber

para contar sem desnudar

o que não deve ser desnudado

e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador

e precipites prodígios acudindo

a chamado geral?
Embaixador do reino

que há por trás dos reinos,
dos poderes, das

supostas fórmulas

de abracadabra, sésamo?
Reino cercado

não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?
Por que João sorria

se lhe perguntavam
que mistério é esse?

E propondo desenhos figurava

menos a resposta que

outra questão ao perguntante?
Tinha parte com... (não sei
o nome) ou ele mesmo era

a parte de gente

servindo de ponte

entre o sub e o sobre

que se arcabuzeiam de antes do princípio,
que se entrelaçam

para melhor guerra,

para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João

e se João existiu

de se pegar."


Carlos Drummond de Andrade - 22/11/1967