setembro 05, 2007

Verso Cabralino


O Artista Inconfessável


Fazer o que seja é inútil.

Não fazer nada é inútil.

Mas entre o fazer e não fazer

mais vale o inútil do fazer.

Mas não, fazer para esquecer

que é inútil: nunca o esquecer.

Mas fazer o inútil sabendo

que ele é inútil, e bem sabendo

que é inútil e que seu sentido

não será sequer pressentido,

fazer: porque ele é mais difícil

do que não fazer, e dificil

- mente se poderá dizer

com mais desdém, ou então dizer

mais direto ao leitor Ninguém

que o feito o foi para ninguém.


João Cabral de Melo Neto

setembro 04, 2007

Amor Menor


inevitável a dor que acompanha
cada silêncio que sopras em suaves desvios de mim.
e há noites, que nem essa, quando a Lua me empurra mar adentro
e que vejo com a claridade dos loucos
o quanto preciso de alforria.
se é tudo que dizem as torcidas que vestem minha camisa,
liberta meu sentimento.
me manda pra qualquer lugar onde teu olhar não me alcance,
lugar qualquer onde eu ainda me veja e possa sobreviver à danação que é pensar que somos dois,
quando carrego sozinha
todo bem-querer, todo insistir, todo abrir coração&alma em magnólias envenenadas por teu descaso e desculpas ilógicas.
e se for mesmo verdade o que leio nas entrelinhas dos quadros que passeiam inertes de ti no meu olhar encoberto de óculos
põe aqui tua mão na minha,
e devagar, como se dá notícia de morte
confirma o desencanto
e me liberta de ti.

albanegromonte.

Das Hostes Pernambucanas

(Tela “Cidade Azul”, de Henri Matisse)

Soneto Do Desmantelo Azul


Então, pintei de azul os meus sapatos

por não poder de azul pintar as ruas,

depois, vesti meus gestos insensatos

e colori as minhas mãos e as tuas,


Para extinguir em nós o azul ausente

e aprisionar no azul as coisas gratas,

enfim, nós derramamos simplesmente

azul sobre os vestidos e as gravatas.


E afogados em nós, nem nos lembramos

que no excesso que havia em nosso espaço

pudesse haver de azul também cansaço.


E perdidos de azul nos contemplamos

e vimos que entre nós nascia um sul

vertiginosamente azul. Azul.


Carlos Pena Filho

Nublante


(era 2005, e eu escrevi assim.)


o Barão me dizia que nossa música nunca mais tocou,
e eu mudei de estação pra encontrá-la inteira em letra&melodia no último dial,
trazendo um gosto amargo na língua molhada de mágoa
- ah, esses amores...
vão-se janela abaixo
de escada, elevando a dor no maior tom,
correndo de costas baixas e coração embriagado com a liberdade solta na alma esgotada
pelas noites&dias cravados no calendário da cozinha,
pelo corredor escuro e parado entre paredes que restaram da demolição das palavras
malditas e mal ditas, tolas palavras,
que nem se sabe o significado... acúleos citados de poeta meio bruxo
ferindo o peito do náufrago que isolado no mar escuro&revolto, atrela-se
à lanterna dos afogados
e segue, quando em terra firme, a luz no fim do túnel estranho que se abre aqui
e vai dar numa cidade tão grande
que se não me perder por lá
será num certo olhar de promessa vaga, que me verei a sentir falta de bússola
...


(quem tirou o último tijolo do muro onde a gente se sentou esses anos todos?)


- ah, esses amores...
fugindo, rugindo maldições e pragas tantas
que até se agradece que os santos de pau oco eram anteriores a esta lenda de querer, e vão ficar
no seu cantinho de sempre, protegendo coração&corpo que ainda quer&precisa ser feliz.
levando roupas, discos, despertador, caneta de tinta invisível, fotografias de nada, metades de tudo que se pensava inteiro
(a cabeça do peixe ficou no aquário vazio)
o corpo sereia e a água toda que nascia dos meus olhos
você levou na mochila
onde nunca caberia a história verdadeira
deste nosso fracasso,
mas que guardou por inteiro
a grande mentira
que foi pensar que a gente se amou um dia.

albanegromonte

Hera, Era


Era uma hera, mas parecia gente. Uma mulher, pregada nas paredes da mansão bonita dos Jardins... Diziam as outras plantas com despeito, que ela pensava que tinha sido enfeitiçada por uma bruxa, que era uma princesa e se transformara naquele monte de folhas disformes. Mas não era verdade... a verdade é que ela era uma mulher até os 30 anos e um dia desejou, num momento de profunda tristeza, ser uma planta. Pronto, um duende que andava por ali, levou a sério e a transformou. Acordou verde, sem as formas arredondadas e colada num muro em qualquer lugar. As outras plantas a olharam com desconfiança... ela continuava linda... das folhas superiores saíam duas esferas azuis que pareciam pedaços de céu (resquícios dos seus); do meio de tudo, duas protuberâncias duras e tesas simulavam seios por demais acariciados; e a barriga reta, mal conseguia colar no muro; não falei nem das pernas, era incrível: uma hera que se dividia na parte inferior em duas longas hastes verdes. Havia ainda o traseiro polpudo que sobressaía quase tanto quanto os olhos. Mas a hera era infeliz... apaixonara-se pelo dono da casa e não sabia como se largar dali para dizer-lhe o quanto o desejava, há quanto tempo não tinha um homem...
E um dia... sempre há um dia nestas histórias, o dono da casa enjoou das plantas que enfeitavam o muro. Contratou os homens da Prefeitura e pediu, não, ordenou: Corta! "Até esta hera com jeito de mulher?" Principalmente, vivo tendo pesadelos com ela..." E aí, os homens começaram a cortar com suas máquinas, uma a uma das plantas que gemiam e choravam, mas ninguém entende língua de planta... Chegou a vez da Hera... quando a máquina ceifou suas pernas, o sangue de gente fluiu para todo lado. Os homens se assustaram mas continuaram o serviço. A hera se retorcia, sofria as dores da mutilação e principalmente o desprezo do seu amado. E assim, numa poça de sangue, viu-se a hera destroçada. Inteiros apenas os olhos azuis. Capricho do duende.


albanegromonte

O Poema






Um poema como um gole dágua bebido no escuro.

Como um pobre animal palpitando ferido.

Como pequenina moeda de prata perdida para sempre

[na floresta noturna.

Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa

[condição de poema.

Triste.

Solitário.

Único.

Ferido de mortal beleza.


Mário Quintana in Aprendiz de Feiticeiro