fevereiro 05, 2008

Não me canso deste texto...





Eu isolo os cabelos; ela ajeita mechas negras e as sobrancelhas egípcias; eu sou verde, ela azul; eu tenho o nariz de um dobrão espanhol, ela alegra as frutas; eu sou um pássaro parado, ela é um pássaro em movimento; eu tenho os olhos renascentistas, ela um olhar impressionista; eu abasteço os caminhos de pernas finas, ela solta os caminhos sem perceber; eu me arrisco na arrebentação; ela espera a visita do mar no meio-fio da espuma; eu sou da meia-noite, ela é do meio-dia; minhas mãos são menores do que as dela, suas mãos alcançam a chuva; ela é minha tradutora quando a questão é o "r", "s", "pl", "bl", "d" e "t", eu acerto o resto; eu deito no lado esquerdo, ela amplia o direito; eu durmo de tevê ligada, ela sonha com o rádio aceso; eu esqueço moedas, passagens de trem e trocos nos bolsos, ela recolhe o resumo da roupa na máquina; eu uso o telefone como orelha postiça, ela é a chamada a cobrar; quando distraído, eu faço poesia atenta, quando atenta, ela faz poesia distraída; eu tenho pés chatos e piso em falso, ela enxerga em duplo e aprecia em dobro; eu prendo a respiração ao comer, ela é a respiração liberta; eu danço fora da música, ela dança com a música de dentro; eu não sei fazer churrasco; ela faz-de-conta que não precisa; eu faço as contas, ela enrola as contas do terço na maçaneta para dar sorte; eu tomo café forte, ela mede a fumaça com a colher; eu chamo seu pai para consertar o chuveiro, ela chama minha mãe para me confundir; eu sou redundância, ela é o eufemismo, eu não uso aspas, ela usa chapéu na praia; eu leio estirado como uma chama, ela lê com as pernas dobradas; eu compro o fútil, ela compra o necessário; eu me perco em lugares abertos, ela se perde em lugares fechados; eu falo sem parar, ela ouve sem dormir; quando eu estou na pior, ela arruma histórias tristes para me deixar otimista; eu prefiro estacionar nas esquinas, ela me centra; eu compro jornal, ela é que lê; eu escapo dos deveres, ela paga guardador de carro; eu me visto sem olhar, ela corrige o que não sei; ela busca um copo d'água de madrugada, eu escuto a água de pé; ela não fica doente, eu adoeço quando estou nervoso; ela pensa em tudo, eu penso o que não sobra; eu extravio nomes, ela extravia rostos; eu não guardo telefones, ela memoriza a lista; eu não canto músicas, ela me legenda o som; eu erro na pronúncia de outro idioma, ela é vento simultâneo; depois do prazer, fico com insônia, depois do prazer, ela quer dormir; eu tenho um porão de lembranças, ela tem um sótão; eu entro nas recordações pelos fundos, ela entra pela frente; eu me alumbro com a mentira, ela se deslumbra com a verdade; eu não me repito, ela imita sotaques; eu faço amigos rápido, ela exige convivência; eu compro as verduras que não prestam, ela cansou de me ensinar; eu não sei contar piadas, ela não gosta de piada; eu imagino, ela desabafa; eu fico calmo na tristeza, ela explode de raiva; eu alimento pressentimentos, ela confia em fatos; ela pede desculpas, eu continuo acusando; eu peço desculpas, ela já esqueceu; eu sinto ciúmes de velhos amores, ela sente ciúmes de novos amores; eu vejo a dor como uma trégua, ela observa a dor como uma lacuna; eu me interesso pelo objeto quando o perco, ela se interessa quando o reencontra; eu sou obcecado, ela é cautelosa; eu sou perfeccionista, ela é comovida; eu improviso, ela planeja; eu fujo do aniversário, ela ensaia o seu com antecedência; eu puxo sua cadeira, ela me seduz de lado; eu sou uma cidade de baixo, ela é a cidade vista de cima; eu piso de leve nas perdas, ela lava as pedras; eu me vingo, ela perdoa; eu sou passional, ela pacifica; eu me hospedo quando ela viaja, ela reside em minhas viagens; eu acredito em Deus, Deus acredita nela; eu rezo ao sair de casa, ela reza ao chegar; eu escalo árvores, ela rega relâmpagos; eu apago a ponta dos dedos, ela deixa a luz acesa no corredor; nenhuma noite é como as outras, as outras noites são dias inventados; nossa risada se bate no escuro



Fabricio Carpinejar

Queixa

Quando de mim te aproximas


e sinto teu cheiro de desejo

fico contente feito garoto com pirulito na boca.


Mas quando de mim te vais, fugindo em dorso de dragão de pêlo,

desatino, perco o rumo

feito barco sobre onda gigante,

rodando para lá e para cá.


Reviro os olhos e as entranhas rasgando os fiapos da alma apaixonada

e necessitada do teu riso e da tua voz.

Serena e doce voz, que me carrega via-láctea a fora,


para passar um dia em Saturno.


E se de mim teu olhar desviado resolver se aproximar de novo,


Juro que te largo um livro de poesia bem no meio da cara.


albanegromonte

Resposta


tua pele
cristal de Lua


que chega pros meus olhos


a cada mês que me afasta de ti


tua língua inesperada


em começo de madrugada


com mãos e cheiro


e me tomar


corpo&alma


olhar ardosia


encantador de serpentes


falando esperanto



em spanish lips



me beija


e aquece


a cada noite


como se ainda


estivesse dentro
de mim


e eu boca aberta e sedenta


sussurro a cada estrela que cai



teu nome segredo sagrado



no meu grito mudo


pelo mundo



que nos
mantém longe






albanegromonte

Frida


“La tragedia es lo más


ridículo que tiene ‘el hombre’pero estoy segura, de que los


animales, aunque ‘sufren’, no exiben su ‘pena’en ‘teatros’ abiertos, ni‘cerrados’
(los ‘hogares’).


Y su dolor es más cierto


que cualquier imagen


que pueda cada hombre‘representar’ o sentir
como dolorosa.”




(do diário de Frida Kahlo)

Lenda

e era então que eu dizia: por ali, não, Pedro.
mas ele, tinhoso que era, dava muxoxo, sorria aquele riso tão cheio de dentes e na boca bonita de se ver, mostrava a língua e me dizia: vou sim, Mãe. nada que tem lá que eu já não saiba de cor e mais. volto no fim do dia, antes que o sol, se deite. me deixa uma tapioca pronta e café.
e se ia, meu Pedro tão formoso, pros fundos da mata atrás de bicho com garras que valia dinheiro naqueles tempos que nem Nosso Senhor descendo do céu (que Deus me perdoe) assentava a cabeça deste meu menino e fazia ele deixar de querer achar um tal de Guará azul.
dizia ele, que este tal de Guará, tinha uma garra que mais parecia ser feita de pérola, pois era branca de doer na vista de quem já tinha visto. só que ele nem sabia quem era que tinha acontecido esta visão, pois se contava essa história desde menino pra ele mesmo, sozinho quando ficava no terreiro brincando com cavalo feito de maxixe que é uma verdurinha da nossa terra, que as criança pegam cru, botam uns palitinho de fósforo no lugar das perna e brincam até não querer mais. mas eu falava era do tal Guará azul, que só meu Pedro conhecia a história. e eu perguntava por que era de nome azul, se as pata eram branca? ele ria de mim, e dizia que era por causa dos olho do bicho. azulzinho da cor do mar que nós nunca tinha visto nessa vida, mas que Pedro me garantia que era sim, pois já sonhava duas vez que era um gavião e sentava os braços num açude grande até a vista não alcançar e era muito mesmo azul por ali, com uns pontos brancos que ele dizia ser as onda.
pois aí, Pedro voltava sempre no fim do dia, antes que o sol se deitasse. mãos vazias, sorrindo sem jeito, mas com a certeza de que amanhã achava o Guará azul, arrancava as garras dele (que matar bicho do mato, meu filho não fazia isso não, pois sabia que bicho era criação de nosso Senhor Jesus Cristo, amém) e vendia pros homem da cidade e nós ficando então rico, pagava as conta que o desinfeliz do pai deixou pra nóis pagar quando foi simbora daqui com a artista do circo que saracoteava junto do palhaço e do mágico. dizem por aí que hoje ele é o palhaço de lá, mas eu nem quero saber, que daquilo lá só teve que preste me dar esse filho tão lindo e tão bom, que eu as veiz até me assombro por ser meu.
e Pedro crescia e ficava homem, sem esquecer do Guará, indo cada vez mais e passando cada vez mais tempo enfurnado na mata.
teve que um dia, meu filho não voltou.
o sol se deitou e se alevantou, mas Pedro não me apareceu.
fui pra dentro da mata que me metia medo, mas queria mesmo era saber do meu filho, encontrar meu menino.
eis que se deu o causo que conto, e que Nossa Senhora me arranque os olho e a língua se for mentira.
de dentro de uma moita, enquanto eu gritava Pedro, meu filho, adonde que tu tá, menino... apareceu um bicho bonito que nunca vi, mistura de onça com gato, orelha comprida, focinho peludo, patas brancas e aqueles tais olhos azul que meu filho falava.
o bicho saltou perto dos meus pés e eu me tremi que nem tivesse caído no meio do rio, de tão frio que fez.
o bicho me arrodeou, cheirou e levantando a cabeça me sorriu um sorriso assim cheio de dentes e com uns olhos azul de doer dentro do coração, e saiu correndo elegante pela mata.
nem poeira ficou de rastro.
aí eu ainda parada que nem um cabo de vassoura, só que tremendo de medo, vi o que nesses anos todos eu negava.
os olho azul do bicho era o mesmo do meu filho.
e quando consegui dar um passo, pisei numa coisa branca que mais parecia uma jóia: uma garra do bicho Guará.
sorri chorando, sabendo que era o presente de despedida que meu menino me deixava, e que seu tempo de gente já tinha passado.
ele se encontrou e se foi.
meu filho Pedro Guará-Azul.



albanegromonte

Adeus


Como se houvesse uma tempestade


Escurecendo os teus cabelos


Ou se preferes, a minha boca nos teus olhos,


Carregada de flor e dos teus dedos;


Como se houvesse uma criança cega


Aos tropeções dentro de ti,


Eu falei em neve, e tu calavas


A voz onde contigo me perdi.


Como se a noite viesse e te levasse,



Eu era só fome o que sentia;



Digo-te adeus, como se não voltasse



Ao país onde o teu corpo principia.


Como se houvesse nuvens sobre nuvens,



E sobre as nuvens mar perfeito,



Ou se preferes, a tua boca clara



Singrando largamente no meu peito.





Eugénio de Andrade