julho 11, 2015

Existe em mim a mais desesperada das lembranças.
Aquela que volta e meia, meia volta
Chega e me pergunta onde deve sentar.
Esta lembrança se faz presente em todas as ausências que de mim eu sei.
E vem.
Mesmo que a porta esteja fechada
O coração oco
E a alma vazia.
E como se fosse nada, isto tudo que eu disse
Entra pela fresta, pela janela ou pelo ralo, dizendo:
Eis-me
E então eu, que já nem lembrava, arregalo os olhos e sinto o coração acelerar
Dizendo não.
Mas a lembrança desesperada, se faz presente e certa
E me carrega pela mão, como se fosse eu ainda a menina que estava lá, quando esta lembrança 
Era real.
E sem mais poder resistir, sigo coração a dentro
E minha alma sofrida se aquece 
Com tudo que já foi e me fez feliz
E seguindo o avesso de mim,
Encontro teu rosto conhecido, o sorriso mesmo, a boca que que me torturava
Em beijos intermináveis 
As mãos que me guiavam caminhos que hoje eu sei.
E então, a mais desesperada das lembranças me acorda do silêncio que escolhi
E vira realidade quando olho para você, por trás das léguas tiranas que nos afastam
Através das canções e poemas que alguém fez para nós
E meu coração sabendo da impossibilidade de tudo, acelera dizendo Não.
Mas o que era já se tornou hoje 
E fugir já não é mais possível.
Tudo se fez tarde.
Incerto meu passo, acerto os ponteiros do tempo
E te trago de volta
Minha mais querida e desesperada lembrança 
Para ser o que nunca deveria ter deixado
Para entrar de vez na minha vida e voltar a ser o meu amor.

junho 28, 2015

Poesia do Sàbado

Primeiro esqueci o cheiro
E ao acordar já não senti o sabor da sua boca

Depois o corpo tornou-se memória
Em vez de impressão
Esfumado, perdido, inglório

O seu rosto desaparecia
Ficavam quase nem os contornos

E no fim sentia só uma tristeza
De promessa feita e não tornada

Miguel Soares

junho 24, 2015

Quarta da Poesia



Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas -
quase como a terra

após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.


A alegria que ontem foi angústia,
tempestade -
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.


Antonia Pozzi (1912-1938)

Tradução: Inês Dias

fevereiro 28, 2015

Eu guardo sim.
Que nem toda a gente, um amor que nunca foi.
Bem dentro do peito, escondido, disfarçado de nada, mas que salta  em noites que nem hoje
Pra fora de tudo dizendo baixinho:
-saudade.
Sim, eu guardo este amor e
sigo em frente fingindo que não é nada este pulo do coração, este frio na barriga e tudo mais que significaria, se fosse ainda, amor.
E um dia foi, eu sei


Eu guardo sim.
Não sei o porquê, não sei desde quando e nem até quando.
Fica por ali, entre as memórias gastas, nas gavetas que custo a abrir, nas canções de um dia que já nem sei, num poema gasto, numa risada qualquer.

Guardo sim. Para nada, para tudo, para um dia quem sabe...

alba negromonte

dezembro 06, 2013


O Prazer da Escrita


Por que a palavra corça surge em meio a esse bosque escrito?
Para bebericar água da primavera descrita
cuja superfície copiará seu focinho mole?
Por que ela levanta a cabeça; será que ouve alguma coisa?
Debruçada sobre quatro pernas finas emprestadas da verdade,
ela pica até as orelhas sob os meus dedos.
Silêncio - esta palavra também se agita por toda a página
e parte os ramos
que surgiram a partir da palavra "bosque".
De emboscada, definidas para atacar a página em branco,
estão palavras não muito boas,garras de cláusulas tão subordinadas
que nunca irão deixá-la ir embora.
Cada gota de tinta contém um suprimento justo
de caçadores, equipados com olhos apertados por trás de suas vistas,
preparados para mergulhar a inclinada caneta a qualquer momento,
cercar a corça e lentamente apontar as suas armas.
Eles se esquecem de que o que está aqui não é vida.
Outras leis, preto no branco, valem.
O piscar de olhos vai demorar tanto quanto eu disser,
e, se eu quiser, será dividido em pequenas eternidades
cheias de balas, paradas em pleno voo.
Nada vai acontecer, a menos que eu diga.
Sem a minha bênção, nem uma folha cairá,
nem uma lâmina de grama irá se dobrar sob aquele pequeno casco.

Há então um mundo
onde eu governe absolutamente o destino?
Um tempo que eu ligue com cadeias de sinais?
Uma existência tornada interminável sob meu lance?
O prazer da escrita.
O poder de preservação.Vingança de uma mão mortal 


Wisława Szymborska (1923-2012).

agosto 22, 2013

A Solidão e a sua Porta



         A Francisco Brennand

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha).

Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal se resta a vida

com tudo que é insolvente e provisóriio
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o contraditório.

                       Carlos Pena Filho in  Livro Geral, 1969