março 16, 2010

Algo...


Toca-me, conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo, soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvido, dá-me qualquer coisa
que me pareça eterno



José Rui Teixeira

março 12, 2010

Faz de conta...



Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que sangue escarlate não estava em silêncio branco escorrendo e que ela não estivesse pálida de morte, estava pálida de morte mas isso fazia de
conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz-de-conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz-de-conta verde cintilante de olhos que vêem, faz de conta que ela amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e que não estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiros que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz-de-conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranqüilidade, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando.

Clarice Lispector

janeiro 05, 2010

Vidro



Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus poemas de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que eu gosto
O vento das ásvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jáz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo in Orla Marítima e Outros Poemas (Assírio&Alvim, 2008)

dezembro 29, 2009

Beleza...


Nosso destino individual está, nesses tempos, nas mãos de insensatos.
O consolo é que, felizmente, em meio a tanta insensatez, em meio a tanto disparate, existe gente que continua pintando ou esculpindo, que segue escrevendo ou sonhando; ou seja, produzindo beleza. Que misteriosa é a beleza!

Jorge Luis Borges / Borges Verbal, Emecê Editores – Buenos Aires

dezembro 10, 2009

Cortazar




Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas, chuva de asas,
e eu sem pão para dar, tão somente
deixo-os vir.
Talvez
seja isto uma árvore,
ou quem sabe,
o amor.

Júlio Cortázar

outubro 18, 2009

A Canção Tocou na Hora Errada


A sofreguidão da música popular brasileira contrastando a fabulação dos
minutos que antecederam a morte da poetisa Ana Cristina César.



Andava exaustivamente pelo apartamento à procura de um canto em que pudesse clarear sua mente atormentada, mas não o encontrava.

Tripudiava em seu próprio corpo e clamava aos deuses algum perdão pela triste inquisição na qual vivia. Pobre Ana Cristina ligava o rádio e chorava sozinha.

Eram duas da madrugada, o apartamento dormia em sua inquietude, enquanto numa rebelião de vozes o Céu e a Terra invadiam seu ser. O acaso contemplava sua doce desesperança e nas mãos da fada da noite alumiava a vara de condão dos desesperados, que choravam a casta solidão, amarela, opaca, mas que não deixava de ser solidão. As paredes pareciam comprimir seus pulmões, fazendo-a se sentir como alguém que prendera um dedo na porta.

Dor, meu deus, quanta dor.

Ana C.,como era conhecida, tinha como companhia somente ele, o rádio, um tanto velho, gasto. Já não havia brilho, tão pouco a vitalidade que tinha no auge dos anos 70. Apenas ele naquelas tantas noites cessou seu pranto, amou-a de modo perfeito, ele compreendia seus anseios e nas incontáveis noites de loucura ofertava-lhe uma canção de Maysa e tudo ficava bem. Ela reconhecia na voz de Maysa a mesma nostalgia que a tornara louca.

De repente o tempo correu como louco por entre as faixas onde só os transeuntes tinham passagem livre e o badalar anunciava do alto do 10º andar aquilo que a jovem tanto sonhava.

Seu amigo rádio naquele momento não lhe acalmava, não lhe entendia, não lhe amava como deveria amar.

Ana C. enxergou pelo negro olho da janela um convite tentador — abriu os braços e dissolveu-se santa no ar. "Viram-se os barcos afundando e o filete de sangue na gengiva".

A canção de Maysa tardou a tocar.

Ariana Segantim