fevereiro 06, 2008

Feitio

o amor é o palhaço assombrando o circo em ruínas, com a lona esburacada.


é a bailarina manca que procura sapatilhas azuis em lojas de subúrbio.


o amor é o mendigo que não se vê quando estende a mão vazia no espaço criado entre nós e ele.



é o pierrot que chora a Colombina que se foi nos braços do Arlequim


o amor é o barco lento no meio da tempestade é a pérola perdida pela ostra criança



o amor é a ferida aberta que nunca cicatriza


é o punhal no coração que desavisado se abre no peito.



o amor é a sonata o soneto



o amor é o vão aberto na porta da alma por onde entram os sonhos mais estranhos




o amor é a noite azul o dia alaranjado



o amor é o que não se entende


o complicador da vida



o amor nunca se acaba sempre deixa alguém sozinho




o amor é a tela em branco a ser escrita com o Tempo




o amor é a lágrima do adeus




é a gargalhada do ser feliz




albanegromonte

Zaratempô!

"Oi querida saudade agora humm chega com brandura de ânimos; desalento que parecia infinito ufa levou descaminho; zaratempô! deus-tempo súbito friccionou peito este atafulhado de angústia com âmbar-resignação; agorinha ouvindo Billie Holiday pensei nela sua risada elíptica achavascada puh própria àqueles que perseguem ad infinitum a ironia em todos os seus escaninhos; sim sei querida melhor nunca olhar pra trás a-hã entendi: mulher de Lot; diacho não sei quem disse mas concordo oigalê! o passado é um segundo coração que bate em nós; bufe-tibufe-pufe eh-eh mano malacafento aqui carece realmente delas batidas duplas; além disso ixe é prejudicial reprimir certas lembranças."





Trecho de Zaratempô!, Evandro Affonso Ferreira, Ed. 34

A Morte do Caboclo



com as cores do sertão, onde me criei até os 13 anos...







Miséria. Miséria de vida doendo na boca da noite que tem fome de dentes. Boca sem dentes, língua que dança no céu sem nuvens do sertão. Ser tão cruel. Cruel sol que queima a carne, a planta, que torra o torrão de terra que teima em ser por cima quando deve ser pisada, molhada, vertida em vida. Vida bandida, armada com faca, facão e peixeira, que cabra da peste não anda sem elas. Vem vida, se quer me tomar, que faça direito. Não me desatine, que fico doido, doente e chego primeiro pra te pegar. É quase certo que o incerto tome conta do que nunca foi meu, que me leve de volta pro canto que eu vim, que nem sei como é, mas que morro de rir imaginando... que seja quente, como é este chão, que seja frio como a noite do deserto, como a noite nestas paragens, que tenha mulher nua e colo de mãe, que seja gostosa que nem carne de tatu. Macia de lamber, que nem a fruta que nunca vi, só ouvi falar. Que tenha tudo que eu quis neste mundo e o que mais eu sonhei. Que tire esta sede, esta fome esta falta de tudo que agora me atormenta. Se possível, que tenha perdão pros meus pecados mais esquecidos e alívio para a maior dor que foi ver meu filho, fugindo das mãos do doutor, atrás da bomba que um cantador disse que mora na barriga da miséria da gente, e que fica de tocaia pra carregar os inocentes. Que frio é esse que me toma a testa, o peito e abraça o meu coração? Que filete de água tão doce escorre da minha boca que não quer se abrir? Meus olhos vêem o sol, a vaca magra, o açude seco e os olhos de Maria. Porque, Maria, teus olhos são tão verdinhos? De onde vem esse choro, esse grito que sai da tua língua sem sal? Maria? Que luz é essa que vem vindo? Maria, você viu o cabra que tentou me roubar o cordão de São Francisco? Maria? Maria, tu morreu? Maria, eu morri. Olha Deus me dando a mão... Maria, Deus é caboclo que nem eu. Tá de algibeira e chapéu de couro. Maria, Deus existe mesmo. Maria, eu vou, que não sou homem de fugir das obrigações. Maria, não chora. Acabou, Maria... Acabou.





albanegromonte

O Nascimento do Prazer

Clarice Lispector é para mim, um ídolo, uma deusa carne&osso, que sofreu como poucos as agruras da vida e do amor. Clarice é flor no peito, escancarada alma que se abre em prosa&poesia para nossos olhos espantados com tamanha beleza. Espelho onde me olho, tentando ver algo além das pobres palavras que me seguem o ritmo manco&tonto. Clarice, para sempre nos meus olhos de fã.















(trecho)










"O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós".












Clarice Lispector

fevereiro 05, 2008

Evohé, Pessoa!

O amor é uma companhia.

Já não sei andar só pelos caminhos,

Porque já não posso andar só.


Um pensamento visível faz-me andar mais depressa


E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.


Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.


E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.


Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.


Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.


Todo eu sou qualquer força que me abandona.


Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.





Alberto Caeiro

de 2005

Photo by Eduardo Barrox
(eu sonhava ser Beatnik...)



CINEMA2



é de manhã na américa o cio... abro a janela e fecho a porta, pois sem tua voz por aqui, ainda que sonhada, nada tem direção e nem mesmo as cortinas se descortinam, apenas se entregam às traças e se arruínam no pó da velha fita de filme noir que alguma beat person, imaginou fazer e saiu colando cenas de Tarantino, Kubrick e Jerry Lewis... ah, mas eu queria mesmo era te alcançar através dessa estrela que teima em brilhar no céu do meu ainda límpido olhar que o selvagem mundo não corrompeu. mas meu coração está corrompido, bêbado e viciado nesta coisa de ouvir música ao longe e acreditar que Morrison e Rimbaud são o mesmo poeta e que ninguém morreu naquele edifício tombado num longínquo setembro negro de tanto horror, que se repete porque o bicho homem quer, numa estação de metrô na fria London da música que o Caetano escreveu quando estava no exílio. mas eu dizia que a mulher-menina fumava compulsivamente, enquanto a taça de vinho tinto desmaiava sobre o altar de mármore, lentamente, como se fosse o sangue do Cristo que não sofria, mas sorria braços abertos e coloridos para um mundo que seria diferente pois Adão e Eva teriam decidido ser amigos e a serpente, transformada na prostituta atávica, se trocava na janela em frente, enquanto o poeta lusitano se quedava diante do cinema 2 que um paulista doido varrido embaixo do tapete do hospício escreveu enquanto ia de bicicleta pro dentista no outro lado da cidade. e que cidade grande é São Paulo. Iorque tupiniquim com seus artistas práticos e plásticos, cidade de pedra e almacoração, onde se sonha que um dia, será criado o raio que purificará o céu, e enfim estes artistas que zanzam pelas praças com seus jornais possam ver as estrelas e o luar que eu vi quando voltei um dia pro sertão onde ser tão bobo é bom. e o andarilho descalço na minha caneca toma comigo as palavras de um livro maldito chamado o coração das trevas que leio enquanto espero o telefone tocar, e escondo a capa pra ninguém saber que eu sei que todo o universo cabe numa casca de noz, e quem disse isso foi o Joseph Conrad. aí, eu ouço no rádio que um pedreiro bêbado foi encontrado morto dentro do concreto desarmado numa rua antiga da minha cidade... penso que se eu fosse o Chico eu fazia agora mesmo uma superprodução chamada Construção e filmava todo em P&B, deixando só o sangue do operário em vermelho bem vivo, da cor do vinho tinto que se espalha pelas minhas veias e como os pequenos raios que borram o ex-branco dos meus olhos que agora, depois que te conheceram, reaprenderam a chorar de esperas insensatas e incautas, tantas vezes avisadas pelos magos de plantão e pelos anjos expulsos do Paraíso por acreditarem em amor e beijonaboca. com língua e tudo. quanto tempo vai levar minha alma pra ser vendida pela tua indiferença ao primeiro personagem de crônica barata que nem se lê de tão comoventemente depressiva. que segredos terei que revelar até que meus nervos se soltem dos músculos e meu corpo atormentado seja liberto deste bemquerersemquerer... mas eu dizia que ia fazer um cinema 3, e me surgiram estas abarrotadas palavras sem fé, que se lançaram tristemente nesta tela tola de um computador que se chama Jorge e se alguém perguntar o porquê eu vou ficar sem saber se pelo Borges ou pelo Santo que nem é mais Santo nem nada, e que pretende matar o dragão que cavalgo em pêlo, pelas pradarias de Tupã e Odin. Vade retro! Tela vazia, pois o cinema 2 acaba nele mesmo, naquela cena em que a mulher dorme ao lado dele na cabine elétrica do carro em alta velocidade, com o vento a carregar as notas do sax de Bird, e ele balbucia um verso de Ferlinghetti pra não esquecer que também é poeta. Corta! Ele vasculha a bolsa dela, à procura de um cigarro pra voltar a fumar, sorri meio cínico e pensa que também foi corrompido no fim de tudo.



Letreiro descendo.


Angelina Jolie, Edward Norton, Sean Penn e James Bond.


Música incidental da cena dela de olhos abertos beijando uma mulher.


Antonio Banderas, Keanu Matrix Reeves, Anjelica Houston e A Pantera Cor-de-Rosa


De repente, um fado, e a puta portuguesa sorri pro Poeta e lhe lança um beijo através da vidraça.



Aí já começa outro filme.



albanegromonte