dezembro 08, 2024

Julio

 Provavelmente, de todos os nossos sentimentos, o único que não é verdadeiramente nosso é a esperança. A esperança pertence à vida, é a própria vida se defendendo.

 Julio Cortázar




dezembro 07, 2024

 "Tenho a idade em que as coisas são vistas com mais calma, mas com o interesse de seguir crescendo.


Tenho os anos em que os sonhos começam trocar carinhos com os dedos e as ilusões se transformam em esperança.


Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma chama louca, ansiosa para se consumir no fogo de uma paixão desejada. E em outras, uma corrente de paz, como um entardecer na praia.


Quantos anos eu tenho? Não preciso de números para marcar, pois meus anseios alcançados, as lágrimas que derramei pelo caminho, ao ver meus sonhos destruídos…

Valem muito mais que isso.


 Não importa se faço vinte, quarenta ou sessenta!

O que importa é a idade que eu sinto.


Tenho os anos de que preciso para viver livre e sem medos. 

Para seguir sem medo pelo caminho, pois levo comigo a experiência adquirida e a força de meus anseios.


Quantos anos tenho?  Isso não importa a ninguém!

Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e sinto."


José Saramago



Lady Cronopio está de volta.


maio 08, 2022

Tu

 o que nunca sai da minha cabeça 

nem desgruda da minha pele 

dia a dia, segundos e tais estás.

na esponja do banho,

no pensamento maroto,

na taça de vinho que desejo e que bebes sem mim.

eis que te tive nas mãos ainda uma vez e mais uma vez te perdi pelos dedos enviesados hoje por dores que te poupo ouvir

(que nem um dia antigo, eu já dizia que não te servia, mesmo sendo teu número exato pra usar, calçar e o mais tudo que só tu sabes)

eis que é hoje e parece ontem que te vi pela última vez sem saber.

se soubesse, o que faria eu? 

o que farias tu?

sinto falta de te esperar.

sinto frio na barriga ao te pensar, e quando te sinto bem perto da minha imaginação, minhas mãos encharcadas me fazem chorar.

como se de fato bem aqui fosse tua boca na minha,

naquele beijo que nunca vamos esquecer.


Alba N.

agosto 30, 2016

B.

A asa da saudade pousa em minha alma dizendo seu nome.
Recolho a lembrança num papel em branco tentando traduzir, achar palavra qualquer que represente ainda que por um segundo, o tanto de amor que guardei para você nestes dias todos que nos separam.
Não há.
Não há verso meu ou do poeta maior, que possa acalmar esta fome sentida do seu corpo no meu, da sua voz no meu ouvido, no gesto mais comum que você faz quando estamos juntos. 
Não há.
Então recorto da memória rasa, uma frase sua, uma palavra que vem só para mim, um dizer nosso. Me agarro a este pedaço de você que resiste inteiro em mim e remonto o calendário, trazendo pra daqui a pouco, o mês que será.
Aos poucos se acalma o desejo, e a lágrima turva meus olhos embaçados. Mas nem nesta hora, sai da minha alma esta sede que só aumenta.
Fecho os olhos e ainda lá está você me dizendo as palavras de amor que mais esperei. 
Abraço então o travesseiro e rogo aos anjos que me tragam você num sonho que dure até a sua volta.

alba N.

botão da saudade

Hoje tirei da gaveta, a blusa que vesti na última vez que te vi.
Florida, como eu estava naquela dia.
Ela se manteve, eu não.
Sinto que meu sorriso se apaga, minha alegria anda lentamente, meus sonhares noturnos são rasos e facilmente os esqueço, enquanto os dias claramente me gritam a saudade de você.
Sorri com o canto da boca, quase um prenúncio de choro, e cheirei a blusa como se quisesse extrair dela, o perfume seu ou a memória mais acesa de cada um dos minutos que tivemos.
(sim, eu não a levei à lavanderia. Tolamente acreditei que assim poderia reter algo mais de você)
Decidi vesti-la e assim dar um destino a  esta loucura inteira que é amar você.
Os botões traíram minha calma secular.
Olha onde você foi se guardar para este momento!
Lembro de nosso reflexo no espelho. 
Você me abraçou por trás e eu tentei reter a imagem.
Num carinho quase derradeiro, você me afastou os cabelos, beijou minha nuca, e disse que abotoaria minha blusa.
Um botão fora da casa.
Você me deixou um recado.
Sem você eu me sinto que nem aquele botão: fora de casa.
Pois amar você, é estar voltando pra onde nunca deveria ter saído. 
Estar ao seu lado, definitivamente é estar segura, é não tomar chuva, é não sentir falta de nada, é sentir completude, é não ter medo, é estar viva. 
Estar com você é ser muito feliz.

agosto 24, 2016

Dizeres

Desliza tua mão sobre meu corpo, 
mesmo que seja no sonho que temos sempre que acordados, beija-me assim enquanto durar o tempo de estar longe de você.

Abraça-me como se não houvesse saudade todos os dias.
Abraça-me dizendo baixinho como se o mundo não fosse apenas nós dois, 
que me ama e que vai me esperar
Até sempre se preciso for.

Promete que viveremos tudo ainda que ainda nos falta.
Promete, 
eu acredito 
e esta ausência tua, serà mais facil de ser suportada por este coração que só pulsa por teu existir.


Alba N.

Leminski





Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

julho 07, 2016

June

Chove e faz frio
Enquanto não pontua
O sentido da vida no meu coração 
Claridade no céu 
de nuvens amolecidas e caiadas de saudade
Arco-íris surgindo de mansinho
Que nem você chegando na minha vida
-trazendo luz, cor e
esperança de cruzar o arco fronteira
para me tornar 
O que era antes de te perder ontem

Eu de ti lembro inteiro
Do abraço na chegada 
que me conta o tamanho da saudade que também é tua

Das mãos que percorrem meu rosto e assanha meus cabelos

Da tua voz no meu ouvido
dizendo o que meu coração já sabe 

Da tua boca bonita colando na minha o melhor beijo que há

Eu de ti lembro
Cada movimento na direção do meu sentir

Do teu riso,
Teu jeito de inclinar a cabeça quando me presta atenção 
Da maciez dos teus cabelos nos meus dedos
Do perfume teu que me penetra cada poro

Eu de te lembro pois existo
E em mim persiste tudo que é teu

Cada sentido meu te reconhece, te pressente e te sente a falta

De ti eu lembro quando existo
Dos instantes todos em que inertes, pasmos e encantados ficamos.

Em tua lembrança toda história nossa se repete 
a cada vez que cruzas o céu para me encontrar
E o nosso amor se refaz até mesmo no último segundo de te olhar
Quando minhas retinas te fotografam 
E tua imagem crava-se nas paredes deste coração que é teu
E guardo teu abraço  pra me aquecer até você voltar

Alba N.

junho 23, 2016

Ah, e este ar de coisa tua
quando meu olhar se desvia sentindo tua presença, cheiro e textura 
Ah, e esta tua marca no meu corpo, 
a pele arrepiada, os calores, os rios que deságuam em ti
Este eco da tua voz nos labirintos que são martelados nos meus ouvidos, os sussurros, as palavras inexatas que me levam a lugares que nunca sonhei,
Este dizer que não é dito e é entendido
Ah, esta saudade que nunca cessa
nunca finda
e que me traz este ar de coisa tua
quando me vejo no espelho
quando olho para o lado
e é teu sorriso enviesado que vejo
além do tempo, além das milhas que nos afastam, além de tudo
e perto, muito perto deste meu imenso amor.

alba N.

"e quando tudo parece desabar  no mundo paralelo ao seu, eu fecho os olhos e abraço seu sorriso que mora na minha lembrança. então escuto sua voz dizendo doçura, sinto seu beijo faminto, suas mãos nos meus cabelos, o calor do seu corpo atravessando qualquer tristeza que existe, trazendo meu melhor sorriso e me refazendo.
nesse abrir e fechar de olhos, retenho esta memória de tudo e sigo tentando cumprir a dura tarefa de viver longe de você"

lady C.

junho 19, 2016

das vantagens de ser bobo



"O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." 

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. 

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. 

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. 

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" 

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! 

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. 

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. 

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! 

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo."

Clarice Lispector

Enviado via iPhone



Beckett







1

fosse apenas o desespero da
ocasião da
descarga de palavreado

perguntando se não será melhor abortar que ser estéril

as horas tão pesadas depois de te ires embora
começarão sempre a arrastar-se cedo de mais
as garras agarradas às cegas à cama da fome
trazendo à tona os ossos os velhos amores
órbitas vazias cheias em tempos de olhos como os teus
sempre todas perguntando se será melhor cedo de mais do
que nunca
com a fome negra a manchar-lhes as caras
a dizer outra vez nove dias sem nunca flutuar o amado
nem nove meses
nem nove vidas


2

a dizer outra vez
se não me ensinares eu não aprendo
a dizer outra vez que há uma última vez
mesmo para as últimas vezes
últimas vezes em que se implora
últimas vezes em que se ama
em que se sabe e não se sabe em que se finge
uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz
se não me amares eu não serei amado
se eu não te amar eu não amarei

palavras rançosas a revolver outra vez no coração
amor amor amor pancada da velha batedeira
pilando o soro inalterável
das palavras

aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
de saber e não saber e fingir
e fingir

eu e todos os outros que te hão-de amar
se te amarem


3

a não ser que te amem


Samuel Beckett

Amalia Bautista

"No fim de contas são poucas as palavras
que nos doem de verdade, e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
E são também muito poucas as pessoas
que nos fazem bater o coração, e menos
ainda com o correr do tempo.
No fim de contas, são pouquíssimas as coisas
que na verdade importam nesta vida:
poder amar alguém e ser amado,
não morrer depois dos nossos filhos"



Amalia Bautista



junho 18, 2016

Mia Couto

"Não aprendi a colher a flor

sem esfacelar as pétalas.

Falta-me o dedo menino

de quem costura desfiladeiros.



Criança, eu sabia

suspender o tempo,

soterrar abismos

e nomear as estrelas.

Cresci,

perdi pontes,

esqueci sortilégios.



Careço da habilidade da onda,

hei-de aprender a carícia da brisa.



Trémula, a haste

me pede

o adiar da noite.



Em véspera da dádiva,

a faca me recorda, no gume do beijo,

a aresta do adeus.



Não, não aprenderei

nunca a decepar flores.



Quem sabe, um dia,

eu, em mim, colha um jardim?"



Mia Couto

necessidade

não há urgência neste sentir desabalado e dilacerante.


n e C e S s i D a d E

hà desatada sangria
avalanche de emoções
acolhimento de sentires atàvicos.
e há pavor.
torto, desalmado, aterrorizante sentimento inesquecivel, que percorre veias, artérias
e há este bater descompassado de coração que pulsa, para, pulsa, para, pulsa e grita: não para!
não para. prossegue.
tenho temor é de não ter mais coração
de não chorar, de não me jogar na frente das rodas do trem
de não conseguir tirar a roupa na frente da tua casa, tocar a campainha mil vezes
até conseguir dizer: vem sou tua.
me veste e desveste
me toma e me larga.
mas pelos deuses todos do Olimpo...
toma-me.
e não nunca me larga.
carrega-me nos braços, pelas mãos, pelos cabelos... mas
me toma
me sabes tua, e serei o que quiseres ou o que puderes receber em teu coração viajante e disperso.
me beija, me adoça me acalma, me remove os temores e apenas
(é só o que peço é preciso)
Promete.
(tu e somente tu consegues)
promete.
cumpre como desde o início
e então
assim saberei.
ainda sou a tua
e tu, o meu.
então vem.
e toda profecia que se sabe há de ser enfim cumprida
então vem
te espero.
vem.
até o último dos dias
até que toda carne se desfaça.
até que o mundo reinicie.
até que não haja mais nada
a não ser, e será
o tudo que se refaz.

Alba N.

dezembro 19, 2015

Ponto

"Um ponto, um simples ponto daqueles que finalizam frases, que mal percebemos. Um ponto assim, na tela do teu celular, no retrovisor do teu carro, na lente do teu óculos, numa página de um livro que estás lendo... pode ser apenas isso: um ponto; mas presta atenção, pois pode ser eu dizendo que estou com tanta saudade que nem consigo escrever, que te amo tanto que nem posso dizer mais, que estou te beijando e portanto não fale nada agora"

ladycronopio em modo direto no coração de quem sabe.

julho 11, 2015

Existe em mim a mais desesperada das lembranças.
Aquela que volta e meia, meia volta
Chega e me pergunta onde deve sentar.
Esta lembrança se faz presente em todas as ausências que de mim eu sei.
E vem.
Mesmo que a porta esteja fechada
O coração oco
E a alma vazia.
E como se fosse nada, isto tudo que eu disse
Entra pela fresta, pela janela ou pelo ralo, dizendo:
Eis-me
E então eu, que já nem lembrava, arregalo os olhos e sinto o coração acelerar
Dizendo não.
Mas a lembrança desesperada, se faz presente e certa
E me carrega pela mão, como se fosse eu ainda a menina que estava lá, quando esta lembrança 
Era real.
E sem mais poder resistir, sigo coração a dentro
E minha alma sofrida se aquece 
Com tudo que já foi e me fez feliz
E seguindo o avesso de mim,
Encontro teu rosto conhecido, o sorriso mesmo, a boca que que me torturava
Em beijos intermináveis 
As mãos que me guiavam caminhos que hoje eu sei.
E então, a mais desesperada das lembranças me acorda do silêncio que escolhi
E vira realidade quando olho para você, por trás das léguas tiranas que nos afastam
Através das canções e poemas que alguém fez para nós
E meu coração sabendo da impossibilidade de tudo, acelera dizendo Não.
Mas o que era já se tornou hoje 
E fugir já não é mais possível.
Tudo se fez tarde.
Incerto meu passo, acerto os ponteiros do tempo
E te trago de volta
Minha mais querida e desesperada lembrança 
Para ser o que nunca deveria ter deixado
Para entrar de vez na minha vida e voltar a ser o meu amor.

junho 28, 2015

Poesia do Sàbado

Primeiro esqueci o cheiro
E ao acordar já não senti o sabor da sua boca

Depois o corpo tornou-se memória
Em vez de impressão
Esfumado, perdido, inglório

O seu rosto desaparecia
Ficavam quase nem os contornos

E no fim sentia só uma tristeza
De promessa feita e não tornada

Miguel Soares

junho 24, 2015

Quarta da Poesia



Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas -
quase como a terra

após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.


A alegria que ontem foi angústia,
tempestade -
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.


Antonia Pozzi (1912-1938)

Tradução: Inês Dias