Revirando meus livros, encontrei um exemplar bem antigo
de O Marido do Doutor Pompeu, Luiz Fernando Veríssimo, e folheando as páginas, encontrei este poema. Gostei por tantas razões , que resolvi postá-lo.
Tentei o velho e bom truque copiar-colar via Google. Nâo é que existe um vazio nesta busca? Havia, melhor dizendo, pois agora está aqui, depois de uma furiosa digitação.
Para seu deleite, uma face interessante do mestre das crônicas&afins.
Disse a mãe
"oh, vida ingrata
sempre fui boa e beata.
Três gerei
e três criei
filhos três
da mesma tez.
Cada um igual ao irmão
- mesmo leite, mesmo pão-
do mesmo ventre parido
fruto do mesmo marido.
E aos três eu ensinei
que o diabo existe e Deus é rei
e santo é o que está, de gala,
no retrato lá da sala:
cumpridor e companheiro
meu São Jorge cavaleiro
matando por Deus o dragão
com uma lança no coração.
E cresceram na mesma casa
debaixo da mesma asa
penteados pro mesmo lado
devotos do mesmo quadro".
Disse a mãe
"oh, meu desvelo
o mais velho, um modelo!
Qur criança, que rapaz,
que adulto, que capaz.
Rezava feito louco
pra ser padre faltou pouco.
Vivia entre lírios e velas
e nunca saiu com... aquelas.
Sério e trabalhador
hoje é técnico contador
e conta os dias, sem preguiça,
pros domingos ir à missa.
Vive quieto no seu canto
é devoto do santo.
O menor é um parrudo
com cabelo à la Menudo.
Joga vôlei e futebol
e basquete e handebol
faz corridas e afins
ah, e hóquei sobre patins.
Não sabe ficar parado
e come como um danado.
Não é um intelectual
-graças a Deus é normal.
Era um devoto do retrato,
mas não do santo de fato.
O que realmente adorava
era o cavalo que o santo montava".
Disse a mãe
"oh, delegado
o do meio, que pecado.
Me saiu um desregrado.
Cresceu como um salafrário
afogando gato no aquário
beijando prima no armário
(ao menos não era o contrário).
Aos treze anos já tinha
cotas num galo de rinha.
E no entanto eu o vi
ainda pequeno- por aqui!-
na frente do quadro parado
e o seu rosto iluminado
pela luz da devoção.
E pensei não foi em vão
tanto tapa e oração...
E agora a confirmação
esta lança no coração.
O do meio é devoto do dragão!"
Luiz Fernando Veríssimo, em O Marido do Doutor Pompeu, 1987

Genial. Sem falsos ares de intelectualidade barata...e, como sempre, com um humor inteligente...
ResponderExcluirSimples como um passeio no parque. Sublime pela imperfeição. Filosofia do riso. Lembrou a cantiga de roda e Villa. Um letra de música. Beijos e a.c.t.
ResponderExcluirM.
ResponderExcluirSempre uma alegria ver você por aqui. Sem dúvida, ainda que num escrito meio trágico, o humor sutil do Millôr faz-se presente.
Beijos
Djabal, pensei que já havíamos combinado que não poderia ler tão bem assim minhas entrelinhas.
ResponderExcluirQue coisa!
Creia-me, a primeira vontade que tive ao ler esta pérola "simples e imperfeita" (amei esta sua avaliação), foi correr pro violão e musicá-la!
Raios!!
Beijos e t.c.a.
Amei ler isso!!!! Quando minha irmã era pequena decorou esta poesia para apresentação no Colégio. Logo toda a minha família decorou junto. Obrigada, nos trouxe lembranças boas.
ResponderExcluirque lindo poema! e por ser filho de Ogum, adorei ainda mais os versos que já moram em minha página do facebook, muito obrigado.
ResponderExcluir1 grande abraço,
the Osmar.