março 27, 2008

Manhã



La Danaide- Auguste Rodin


Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos



Mia Couto

3 comentários:

  1. Li a poesia que você escolheu e fiquei pensando no significado sem encontrar uma resposta.
    Ontem vi uma foto e ela me despertou uma resposta.
    Hoje relendo o Mia, soube que a resposta era para você, e o seu momento de escolha, pois estava situada num momento imediatamente anterior àquele em que a poesia houvera sido escrita. Será? Non Liquet.Deixarei a resposta a seu cargo. Beijos.

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  2. Sim, caríssimo.
    Mas, que foto levou a este despertar?
    Beijos e aquela coisa toda.

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  3. A foto ficou no texto que escrevi como resposta lá no NON LIQUET. Foi incrível, a leitura da poesia, o pensamento a respeito do comentário, a foto e o texto. Tudo fechado num ciclo involuntário.
    Beijos e act.

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